domingo, 22 de abril de 2012

ESCRITOS MEUS: A PROFECIA DO COMETA


Ih! Isso de destino, é coisa muito séria...
Não há como remediar para não cumpri-lo.
Quem nele estiver inscrito, se-lo-á por certo
sua vítima, em qualquer curva do caminho...

Isso tudo me falava o bom e velho Isaac,
enquanto me apontava ali no templo
o lugar onde o centenário órgão se alojava,
pedindo-me a gentileza de uma peça...

Mais do que curioso pela visita em sonhos,
Eu é que lhe implorava uma história
Para que eu a desfiasse aos meus leitores
Que, diária ou semanalmente, aqui recolho...

- Do destino ninguém foge! disse-me Isaac,
acentuando bem a expressão "destino",
que a sonoridade de sua voz me tocou fundo...
- Vou contar-lhe a cobrança de um carma.

E narrou-me sobre um homem que, certa feita,
Uma cigana lera em suas mãos cruel fatalidade!
"Tenha cuidado com a passagem do cometa.
Ele poderá ser o causador de sua morte!..."

Coitado do inocente; passou a viver apavorado.
Lia almanaques e informes astronômicos,
à cata de saber onde/quando apareciam cometas,
Prevenindo-se de todas as possíveis formas...

Quando o Halley veio de novo, no século passado,
estendendo sua cauda brilhante, ele, em pânico,
Nem chegou a sair de casa, tomando precaucações.
O cometa passou e... alívio! Nada lhe aconteceu.

Ultimamente, já nem pensava mais no aviso
da vidente; sorria quando alguém mais próximo
lhe lembrava a devastadora "profecia do cometa"
E dizia ser coisa que não existe. "Conversa fiada!"

Mas como diz a velha e enxovalhada sabedoria,
"do destino ninguém foge", o previsto se cumpriu.
Estava ele, um dia, atravessando uma estrada,
quando ouviu um grito: "cuidado, olhe o cometa!"

A última coisa que fez, instintivo, foi olhar o céu...
Sentir um choque, ouvir o baque... cair de bruços!
E ao sair do corpo conseguiu matar a charada:
era o Rapidão Cometa, que passava com mais uma carga...

UNIVERSO POESIA: A busca mais sublime


Nonato Albuquerque

Nascer e viver são etapas de momento
Das vidas que se tem pelas estradas do tempo.
Cada passagem no corpo é um útil aprendizado 
Em busca da meta chamada perfeição. 


Crescer e ser feliz são fases desse tempo 
Em meio as semeaduras de tantas existências. 
O hoje é a resposta do ontem, e o amanhã, 
necessariamente, será o que hoje somos. 


Por isso, nas estradas do mundo, dê tempo 
À tua própria ascensão, embora não percebas 
Que asas leves vão se ajustando a tua alma 


A cada passo que se der em favor do bem. 
É que a virtude do tempo consagra um impulso 
A quem vive do amor a busca mais sublime.

domingo, 15 de abril de 2012

O PAI QUE VISITA A FAMÍLIA

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Experiências extra-sensoriais com pessoas que já deixaram essa dimensão são muito comuns, muito embora a maioria das pessoas guarde lembranças poucas. Eu já as tive muitas. Confesso que, nenhuma, me surpreendeu tanto quanto a que registrei esta madrugada.

Estava dormindo e sou acordado por uma pessoa que anuncia estar chegando alguém a minha residência. Antes que eu possa indagar de quem se trata, um sentido qualquer leva-me a reconhecer a figura de meu pai. Em junho que vem completará dois anos de seu desencarne. Poucos meses depois de sua passagem, eu e minha irmã Regina tivemos uma visão muito curiosa de sua presença entre nós. 

Mas a de hoje foi magnífica. Ele chegou me abraçando e indagando se tudo estava bem por aqui. Como alguém que viajasse e retornasse querendo saber as novidades. Eu, na verdade, era que tinha mais interesse em saber dele. "Como é que o senhor está" indaguei. E ele me respondia com um ar despreocupado que estava tudo em ordem. 

Eu notei na sua cabeça uma espécie de lenço em torno de sua fronte e perguntei, curioso, o que era aquilo. Não consegui entender sua explicação, mas ele parece querer dizer que era algo normal. Indago se ele tem visto Regina e ele me responde: "ah" ela sempre vai lá quando está dormindo. É a pessoa que mais me visita". 

De repente, vejo da janela do quarto, gritos de pessoas lá embaixo do prédio. Temo que sejam espíritos de má índole e peço ao meu pai para que se cuide. Ele diz sorrindo que se trata de amigos que vieram em sua companhia  E desaparece. 

Nisso, eu me acordo e ouço no quarto contíguo a voz de minha mãe chamando. Vou até lá e ela pergunta "Você viu seu pai aqui?". Eu chego a estremecer. Aos poucos, ela vai se acordando e diz: "Ah! eu tava era sonhando!...." Vira-se para o outro lado e volta a dormir. 

A minha constatação é de que papai esteve nos visitando para atender a uma tradição comum entre as almas desencarnadas e suas famílias que ficaram na Terra. Para mim, algo bastante comum que não me impressiona esse fenômeno de desprendimento.

domingo, 1 de abril de 2012

Do discurso sobre o capital humano e as drogas


Semana passada, assistindo a TV Câmara, um parlamentar cearense do legislativo municipal denunciava o consumo intenso de drogas por torcedores que foram flagrados fumando maconha e crack nas dependências do PV, durante o jogo Fortaleza e Ceará. Pedia o representante do povo para que a casa envidasse esforços no sentido de evitar que isso acontecesse nas dependências da praça de esportes, por conta de que os drogados acabariam levando a prática do vandalismo e depredando o patrimônio público.

O legislador estava preocupado com os prejuízos ao patrimônio público.

Eu, particularmente, tem uma outra visão do problema: preocupam-me os danos causados ao patrimônio, mas muito mais ainda ao patrimônio humano de quem se vê vitimizado pela drogadição. Preocupa-me o número cada vez maior de jovens que se tornam dependentes e clientes de um supermercado que, hoje em dia, não tem limites. Comercializa-se drogas em todo canto. E não só os jovens de comportamento equivocado se unem a esse contingente, mas adultos que engrossam os descaminhos da sua própria evolução.

Mães e pais estão compartilhando desse malsinado comércio do crack e da cocaína, como nem mesmo na minha época de juventude podíamos constatar. E era um período de mudanças, onde a revolução do ‘paz e amor’, exibia uma pretensa liberalidade que , se chocava aos olhos da época, hoje soa como atitude bastante pueril.

Diante da invasão do crack e da facilidade com que a cocaína hoje é adquirida por uma clientela que, há dez anos, jamais teria condições econômicas de adquiri-la, a era dos hippies mais parece estória de carochinha contada nos dias de hoje.

O livro “Droga! Internar não é prender” do psiquiatra Odailson da Silva, tem a preocupação com o capital humano. Capital humano, hoje em dia, a serviço de um modelo consumista alienante que, provoca sonhos em mentes ainda em formação e que são cooptadas – essas mentes, por forças interessadas apenas no capital econômico.

O livro do Odailson tem o certificado de quem convive no dia-a-dia desse mundo que, antes era restrito a uns poucos ‘chefões’ mas que hoje em dia já se avultou de tal forma que ninguém nem mais sabe quem é o traficante e quem é o viciado.

A propósito, o Juiz Manuel Clístenes de Façanha e Gonçalves, ao prefaciar a obra, cita muito acertadamente que hoje não tem mais a figura do traficante, como dono da única boca de fumo do bairro. “Agora são dezenas de pequenos traficantes e centenas de aviões que disputam com suas gangues o controle de tráfico de drogas”.

Agora, junto ao aspecto do vício acomoda-se o interesse da vantagem, da ganância – que, aliás, é a porta de acesso a terríveis comprometimentos tanto material quanto moral. É por ganância que o comerciante frauda no preço e no peso; é por ganância que o político engana seus eleitores; é por ganância que se alastra a corrupção desmesurada; é por ganância que a Educação virou comércio e até as próprias religiões, na conquista de almas para ampliar suas contas bancárias, deixam o espiritual e se dedicam a salvar a alma de seus patrimônios.

Diante de um mundo cada vez mais individualista, o jovem toma como modelo, os exemplos de uma sociedade distanciada dos valores éticos e morais que sábios nos deixaram. Diante da família desajustada, do ambiente cultural comprometido pela mediocridade, ele busca fugas. E sabemos todos que, mesmo os indivíduos mais bem ajustados  se tornam clientes das multinacionais da química, acabam também se tornando dependentes de remédios para emagrecer, engordar, dormir, acordar, e até para fazer sexo.  Iludidos por essa cornucópia de desejos, os jovens mergulham no desgraçado poço das drogas, onde a bebida – fartamente colocada à mão de qualquer, em qualquer lugar (vide o caso da Fifa) -  a bebida é o primeiro degrau para essa escada do horror , que não é ascendente. Ela leva sempre o viciado para baixo.

O que fazer diante de tudo isso? Como agir? Como tratar? O Estado, no afã de se ver livre de um problema, faz a limpeza das ruas, como para tirar o lixo da vista de todos. Manda as vítimas do crack para internatos que, na verdade, não dispõem de parâmetros para reajustá-los e devolvê-los à sociedade. Centros de recuperação são abertos, alguns responsáveis, outros interessados em usufruir as verbas do sistema e acabam misturando religiosismo – e não religiosidade – com a necessidade de humanizar e espiritualizar essa gente.

“A internação precede à prisãoassim como a doença é anterior ao crime”, afirma com segurança Odailson nesta obra, que tem tudo para inquietar a todos nós. Principalmente, porque ele conhece o problema de cor. Porque ele trata de adictos, mas não apenas pelo viés da Ciência fria e sim pelo conhecimento espiritualista que sua alma comporta nesta existência. Pelos valores espirituais que precisam ser fermentados com o exemplo, com o modelo – não só para os doentes do crack, mas para seus familiares e suas amizades. 


Porque afinal, o viciado é apenas a ponta do iceberg de um drama social e existencial que confunde a todos nós. A ponto de um político pedir providências para evitar que as vítimas desse cancro de final dos tempos possa prejudicar o patrimônio público – que achamos correto, defendê-lo. Mas o patrimônio humano é ainda a prioridade de quem enxerga apenas o rótulo e não a essência. De quem vê a caixa e não o produto. De quem não compreende que o valor da Vida está, principalmente, no capital humano. 


Odailson entende o problema. E o livro seu livro nos provoca: "Droga! Internar não é prender" O caminho é aprender. E o livro ensina. 


(Discurso a ser proferido dia 2 de abril de 2012
na Academia Cearense de Letras, durante o 
lançamento do livro "Drogas! Internar não é prender"
do psiquiatra Oldailson da Silva)