segunda-feira, 11 de junho de 2012


Poesia Nossa de Cada Dia

para os que ficarem depois que eu já tiver ido

O corpo que agora baixa à essa sepultura,
Não sou eu - diria o morto se fosse ouvido.
É apenas o invólucro temporário que a essa altura
Estende-se ao chão, da vida agradecido.

A alma que eu sou e mostra desenvoltura,
Permanece de pé, com todo o seu sentido.
Eu permaneço ativo, vivo essa aventura
Que a vida me propôs e a tenho defendido.

Ah! crença vã dos que pensam dessa maneira
Que ao último suspiro, a vida entregue os pontos
Como gostaria eu de provar a todos quantos

assim mourejam na Terra essa fé sem eira,
Que somos eternos e ambientamos contos
Que em outros planos se renovam em cantos 
13/08/2006 20:06 antena Enlace permanente. sin tema No hay comentarios.Comentar.

Escritos Meus
O anjo decaído

Nonato Albuquerque

Chegou àquele hospital meio chumbado. Não acreditava no que lhe dissera o irmão mais velho. Teria que partir. Viajar com destino ignorado. Era assim que sempre acontecia com os moradores daquela colônia. Chegavam ali, se estabeleciam, recuperando-se da longa jornada pela estrada do tempo e, quando já estavam até criando raízes, fazendo amizades mais fortes, vinha sempre alguém com a notícia de que teriam que embarcar.
Não adiantou nada embirrar, bater o pé, dizer que não ia de jeito nenhum. Contra esse tipo de comportamento, eles tinham ações bem práticas. Chegavam ao ponto de convencer ´neguim´ a aceitar, caso contrário teria que ir à força. Danielo foi um desses casos.
Quando soube que teria que ir, fugiu de casa. Mas não foi tão longe. As barreiras de som colocadas por eles ao longo dos caminhos, rapidinho denunciavam os fugitivos. E acabavam caindo nas armadilhas elétricas montadas por todos os pontos.
O pior é que Danielo descobriu que não adiantava fugir, pois haviam sensores instalados dentro do seu cérebro, denunciando-lhe os mínimos movimentos.
Foi apanhado próximo ao umbral da Costaterra, uma espécie de sítio instalado entre a camada iônica do planeta - a ionosfera - e a selva magnética de sons, onde cada morador era sempre tentado a fugir por ela. Para capturá-lo foi preciso injetar-lhe uma droga de efeitos fortes.
Levado ao hospital pelas equipes técnicas, ele foi colocado num descompressor de energia e, pouco a pouco, ele foi sendo compactado ao nível mais baixo de sua vibração. O que sobrou dele foi colocado dentro de uma proveta, mesmo instante em que da superfície da matéria, agentes iniciavam a experiência "in vitro" para a fertilização de óvulos.
Acordou "uma eternidade depois", preso a vestimentas diferentes e, pelo que soube, passou um bom tempo numa espécie de hibernação para que a operação pudesse ser concluída a contento.
Ao perceber que estava preso outra vez num corpo, gritou, esperneou, mas o eco de sua voz parecia não responder aos impulsos de sua mente. Mãos lhe pegaram jeitosamente e se detiveram alguns minutos a acariciá-lo. Mas o que ele queria era voltar à colônia, ficar com os seus, desistir da viagem à terra nova, sentir-se livre de qualquer amarra, como aquelas vestes que lhe aprisionavam as chances de voltar à luz.
Ouvira alguém dizer que ele nascera. E a voz de uma desconhecida falando baixinho ao seu ouvido: "que bom, que você veio, minha coisa linha!". Queria gritar que ele não era nenhuma coisa, mas sim um anjo do plano da Luz. E que por ter desobedecido as ordens do seu patrão, fora expulso do Paraíso e viera a essa dimensão, pagar sua dívida. Purgar seu pecado. Nascer homem. 


Escritos Meus
0 pássaro de luz
Nonato albuquerque

Noite escura. Breu medonho. Eu na praça da matriz. Silhuetas negras de pessoas conversando. Nenhum som se ouvia. Não se po-dia distinguir ninguém. Vai e vem de gente andando pra lá e pra cá, passeando. Não havia nenhum brilho de luz. De repente, lá em ci-ma na torre da igreja, um pássaro. Um pássaro iluminado. Brilhante que nem uma lâmpada florescente.
A idéia que eu tive é de que ele acabara de pousar em cima do cruzeiro e descansava de um longo vôo. O pássaro de luz era o úni-co contraste naquele mar de escuridão. E, nesse oceano, as pessoas navegavam seus corpos como se buscassem chegar a um porto.
Tentei chamar a atenção dos passantes para a visão fabulosa. A a-ve pousada sobre a torre da igreja e derramando pingos de luz en-quanto sacolejava suas penas. Incrível, as pessoas não me ouviam. E nem me viam, dedo em riste, apontando em direção ao pássaro.
Foi então que me lembrei que podia estar sonhando. E recordei o que, num outro sonho, me ensinara um monge de nome Itzack Al-brecht. ¿Fora da dimensão da matéria, ao invés de falar, pense, diri-gindo sempre o vôo do pensamento a quem você deseja atingir¿.
Fechei os olhos. Mãos postas com os dedos polegares levemente tocando os lábios, vibrei. ¿Gente, vocês não estão vendo aquele pássaro de luz?¿. Incrível. Num átimo de segundo, todos se volta-ram em minha direção, indagando a posição da ave. ¿Um pássaro de luz! Onde?¿.
Apontei a torre da matriz, onde o pássaro continuava pousado. Mas ninguém conseguia vê-lo. ¿Pássaro de luz! Era só o que fal-tava!¿, diziam em tom de ofensa. Achei que estavam a brincar co-migo, mas todos todos foram me dando as costas e retornando aos seus lugares de antes, chamando-me de sonhador, louco, visionário.
Desalentado, eu já ia abandonar o local, quando notei que o pás-saro levantara vôo. E mergulhara em minha direção. Logo, estava diante dos meus olhos. Passou raspando o meu rosto. E enquanto deslizava no seu vôo quase magnético, me surpreendia outra vez.
O pássaro ao passar diante de mim, como se numa cena de ¿slow-motion¿, salpicou gotas de luz em meu rosto. Gotas que escorriam delicadamente iluminando minha face. Gritei para que as pessoas vissem, mas elas não me deram atenção. E então, sem que soubesse dizer como imaginara a idéia que tive, pedí que todos ali pegassem uma vela e algum objeto que os refletisse, um vidro espelhado qualquer, para verificarem o milagre.
E cada vulto negro que ia acendendo uma vela, ia se iluminando, como uma enorme lâmpada florescente, na mesma voltagem da luz do pássaro. De repente, a praça se iluminou e um coro de vozes, partindo não sei de onde, entoou uma Ave Maria que eu nunca ou-vira antes.
- "Vejam como vocês são céticos. O pássaro de luz existe. E ele habita dentro de cada um. Basta despertá-lo- , gritava eu a todo pulmão, enquanto ia acordando magicalizado do meu sonho.



NONATO ALBUQUERQUE
outubro de 1998 
Escritos Meus

A OUTRA FACE DO CRISTO
DA CEIA LARGA DE DA VINCI
Nonato Albuquerque

Nunca tive aptidões para a pintura, mas já fui retratado pelas mãos de um grande mestre. Quem me vê assim maltrapilho, miserável, jogado pelas ruas como um trapo, nem imagina que, um dia, eu já fui modelo de um famoso pintor: Leonardo da Vinci. E meu rosto, acreditem, ficou impresso num de seus trabalhos mais inesquecíveis, a Santa Ceia. Aliás, por duas vezes ele me retratou nessa mesma tela.
Eu morava em Milão, por essa época. Jovem, bem afeiçoado, levava uma existência tranquila. De família abastada, tinha recursos e, por onde eu passava, era alvo de cortesias e olhares das donzelas, chegando a arrancar a ira dos mancebos que me invejavam o porte. Estive prometido a uma das mais bonitas mulheres da cidade. Era, porém, a semelhança física com a figura do Nazareno, o traço mais marcante de minha pessoa.
Certa feita, quando estava em minhas noitadas junto a amigos que o meu dinheiro e minha fama atraíam, achegou-se a mim um pintor florentino de nascimento e de nome já bastante íntimo à escola de arte difundida por seu mecenas, Lorenzo de Médici. Convidou-me para que eu fosse modelo de um novo projeto seu. Uma tela que ia registrar o último encontro de Jesus com os seus discípulos antes da tragédia na cruz. O convite me deixou sa-tisfeito, afinal era o mestre de Nazaré um dos ícones mais respeitados da virtuosa fé católica, a qual eu professava junto com minha família. E, depo-is, eu tiraria partido da minha semelhança com o filho de Deus.
Durante algum tempo da segunda metade do século XV, eu trabalhei pa-ra Da Vinci. Nessas ocasiões, ele conversava muito, indo dos temas mais banais aos assuntos mais profundos. Uma vez, chegou a contar-me algo surpreendente. Havia mais do que o simples interesse em retratar uma pas-sagem bíblica com aquele quadro.
Da Vinci - e quebro agora um pacto de silêncio de muitos séculos - desenvolveu com a "Última Santa Ceia", um precioso ensaio sobre Astrologia, mercê de seus estudos de ocultismo junto a outras ciências que ele tão bem conhecia. O quadro, em verdade, representa uma leitura do cos-mos e os doze signos do Zodíaco e as relações psicossociais de cada indivíduo que nasce sob as mais diversas conjunções. Os onze homens que estão em torno do mestre atendiam, também observou o artista, a um preceito antigo da seita dos nazarenos, cujos rituais ocorriam nos cenáculos, principalmente ao aproximar-se a festa do Pessach.
Depois, quando da Vinci já havia dispensado os meus préstimos, eu me retirei de sua vida e a minha, inexplicavelmente, passou por um redemoi-nho de acontecimentos. Por uma grande paixão não correspondida, eu aca-baria estabelecendo uma mudança radical. A mulher que me fora prometi-da em núpcias, simplesmente me deixou - cansada, segundo ela, de minhas muitas traições - e fugiu com um outro. O peso do mundo desabou sobre minha cabeça. Entrei em parafuso e, literalmente, enlouquecí.
Larguei a casa dos pais, passei a viver nas tavernas, constantemente em-briagado. Perdí as noções do tempo, do respeito e da dignidade, a ponto de chegar a mendigar nas ruas para minha própria sobrevivência. Minha famí-lia fez de tudo na tentativa para eu me recuperar; mas foi em vão.
Uma noite, quando eu dormia junto a outros mendigos no átrio da catedral de Milão, fui acordado por um companheiro. Dizia-me estar ali uma pessoa bem aparentada, à procura de alguém para um trabalho que ele esta-va a realizar. E eu tinha sido a pessoa escolhida.
Quando abrí melhor os olhos e me deparei diante daquele homem de cabelos compridos e barba ainda mais longa, me assustei. Era o pintor famoso que me procurava. Mas ele não reconhecera naquele farrapo humano que eu me transformara, o seu antigo modelo de Cristo. Quando lhe revelei minha identidade, ele ficou perplexo. E ao tomar conhecimento de toda a tragédia, lamentou minha situação de penúria, mas mesmo assim me ofe-receu o emprego até mesmo como forma de me auxiliar na recuperação.
Evidente que eu não mudei, pois a desgraça já havia me tomado a pró-pria alma e nem o meu físico lembrava mais qualquer vestígio da meiga e doce figura do rabi da Galiléia, de outros tempos. Mesmo assim, Leonardo da Vinci precisava de mim para que eu lhe inspirasse com meu rosto preco-cemente envelhecido, a refletir todo a maldade que eu herdara do mundo. Mas, jamais, uma revelação me causaria tanto impacto quanto a da nova proposta do pintor.
Ele, agora, estava à procura de alguém com feições bastante carregadas de sofrimento e dor para figurar no projeto que ele ainda estava a executar. E entre todos os desgraçados da sorte que ele sondara por onde andou, nenhum chamara mais sua atenção do que minha triste e singular pessoa en-tregue à desgraça da bebida.
Aceitei o trabalho e, durante algum tempo, era eu, uma vez seguinte, o modelo através do qual o grande mestre do Renascimento compunha a sua fantástica visão da Ceia Larga, na qual desenvolveu todo o seu talento para revelar a contraditória face da individualidade humana e da capacidade de uma mesma pessoa viver o seu paraíso e o seu inferno numa única existên-cia na Terra.
Depois de ter sido o Cristo nessa obra majestosa, o destino me encami-nhara ao outro extremo. Da Vinci encontrara em mim o modelo completo para retratar o mais miserável de todos os seguidores do Mestre. E foi assim, que eu emprestei novamente o meu rosto para que ele desenhasse o perfil que imaginava ter tido o discípulo Judas Iscariotes, o que fora vítima da sua própria miséria humana. 
Escritos Meus
retrato falado

Um excluído, cidadão de uns 33 anos, é preso, torturado e executado de forma arbitrária. Seu julgamento durou menos de 24 horas, entre a prisão e a morte assistida por centenas de pessoas.
O crime pelo qual foi executado não ficou bem definido. Há suspeitas de que ele vivia à margem da lei. Que pregou uma nova ordem social, na qual as pessoas deveriam viver no Bem, na Esperança e na Caridade.
Ousado, ele chegou a incitar as multidões a abandonarem os vícios da maldade, do ódio e da violência.
Seus algozes o acusaram de andar em bando, com uma gangue que chegara a danificar um templo religioso, expulsando os comerciantes que, segundo ele, assaltavam o
consumidor no peso e no preço.
Preso, depois de várias tentativas frustadas pelas milícias oficiais, esse homem quase foi linchado pela multidão à qual ele assistiu durante três sucessivos anos, ensinando regras de comportamento ético e de uma vida saudável para o corpo e para o espírito.
Foi a ajuda de um integrante de seu grupo - através do expediente da delação - que deu à polícia a chance de localizá-lo. Sua prisão não obedeceu a nenhum critério da lei ou respeito aos direitos humanos.
Sua identidade é bastante conhecida mas há em torno dele um grande mistério. Partidários e até inimigos são unânimes em garantir que ele sempre se portou a favor dos pobres, assassinos, prostitutas e anunciou a Justiça em defesa dos muitos oprimidos.
Esse homem, sem residência fixa, costumava atrair multidões às praças e aos locais por onde ele pregava lições que jamais foram ouvidas da boca de alguém: o dever de amar os inimigos; esquecer pai e mãe para segui-lo; e fazer pelo
outro aquilo que desejaríamos que nos fizessem.
Preso, torturado e executado em via pública num local denominado Morro da Caveira, esse homem mereceu o registro maior de todas as violências.
Seu nome: Jesus.
Seu crime: ter amado a humanidade.



Nonato Albuquerque/escrito em 14/04/95.
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Cada vez mais em muitos lugares do mundo, pessoas de todas as classes buscam descobrir o lado zen da Vida. O verdadeiro sabor dos prazeres da alma.

Desfrutar de coisas simples, mas de prodigiosas virtudes para a expansão do eu interior. Amar a si mesmo, mas sem perder a distância do outro a quem devemos corresponder a lei de ajuda. Viver em benefício de todo próximo. Ser cortês com tudo e com todos. Ter ideais mais próximos da realidade.

Defender o meio ambiente como parte de seu todo. Ouvir mais o vento. Sentir mais a Natureza. Meditar. E saindo de sí, conviver amiúde com pessoas menos amargas e dissociadas de tédio e depressão. Indignar-se com todo erro. Ser exemplo, sem denotar a menor pretensão de sê-lo.

Aqueles que no soberano palco da vida se armam de ferramentas zen, pouco a pouco dissociam-se de seus estresses e descarregam as emoções tendenciosas ao orgulho e ao egoísmo. Expandem mais o seu eu espiritual como forma de iluminação.

A força do Amor tem a competência de acalmar nervos, retemperar os corações de algo suficientemente bom para o equilíbrio da Vida. Prazer, doçura, paciência, compaixão - lenitivos dos quais nem percebemos que dispomos em nosso armazém interior.

Agem bem os que disputam menos o Ter em função do Ser, como forma de responder as inquietações do mundo moderno. Se há vazio e angústia no coração de muitos, é que grande parte dessas pessoas ainda não se apercebeu que o ideal da Vida se nutre de valores que nenhuma gôndola de supermercado tem para oferecer.

Viver zen é, portanto, armar-se de coragem para enfrentar os dias difíceis com a serenidade com que os marujos enfrentam as tormentas e relevar tudo aquilo que, de um modo ou de outro, excede os limites da nossa temperança em função da virtude primordial da vida que é viver em benefício do próprio planeta que habitamos.


Texto: Nonato Albuquerque