domingo, 5 de janeiro de 2014

Croniqueta do mais além


Introspection - Be Chronically Well


Que parece um correio sem estafeta? Uma Roma sem papa? Algo possível de acontecer, mas difícil de se imaginar. É com esse pensamento que aporto nessa dimensão à procura de dividir meus conhecimentos de velho cronista, acostumado à escrivaninha da sala ou mesmo do quarto em casa, onde uma fianga cearense recolhia meu corpo cansado da lida diária. E eu dormia com os anjos, embora n(d)eles não me fizesse crente. Por aqui, não dei de cara com nenhum deles. Aliás, muitas coisas são fáceis de se ver, mas difíceis de contá-las. Tudo tem similitude com o que já vi(vi) e, ao mesmo tempo, parece novidade saída da última linha de produção. 


Daquele céu tedioso que as catequistas ensinavam aos meninos preparando-se para a primeira comunhão, com anjinhos barrocos tocando harpas, vestes brancas e auréolas na cabeça, não encontrei nada disso. Tem muita agitação, como pede a Vida. Pessoas circulam pela cidade – incrível, existem cidades do outro lado da morte! -, numa atarefada visão de sinergia que, provavelmente, algum leitor meu do diário de bordo que eu consignava nas folhas do jornal, irá dizer que eu bebi todas por aqui ou que bati com cabeça no caixão antes de descer à ‘última morada’. Que nada! Ando cambaleando por aqui, mas é com a pancada dessa ‘realidade’ que acabei de descobrir.


Os indivíduos não deixam de ser o que são. Pensamos, agimos, comemos, sofremos, temos saudades e - o que é mais interessante -, atuamos como se estivéssemos ainda na vigília. É, porque eu tenho a nítida impressão de estar dormindo e convivendo com um daqueles sonhos que me acometiam nos tempos em que, plantonista de uma clínica de doentes mentais, eu aproveitava que os doidos estavam todos dominados, para curtir uma soneca. Nessas horas, movido talvez pela dor na consciência de dormir no emprego, acordava em meio a pesadelos que, mais pareciam, os ares dos antigos asilos pinelianos.


Hoje, que me deram chance de chegar à posta restante de vocês, acuso-me decepcionado com tudo que me ensinaram da vida após a vida. Tudo é real. Tudo tem vida. Mortos estão aqueles que nunca se preocuparam em preparar a bagagem para o que me diziam aí ser “a grande viagem”. Tão fantástica quanto a lombra doida de um baseado curtido nas madrugadas do Estoril. Por enquanto, é isso o que eu consigo ditar aos extra-celestes, como passei a divisar a humanidade, dividida entre a que se diz viva e aquela que morreu. Eu sou parte das duas, muito embora por aí ninguém mais nem saiba quem se esconde por trás dessa descompromissada croniqueta do mais além.