quinta-feira, 3 de abril de 2014

O vento que nos traz notícias do ontem




É preciso ouvir a voz do vento norte.
Ela traz notícias de olhares outros
Que a gente perdeu com os dias;
Esquecidos de viver, naturalmente,
A melhor forma de auxiliar-nos.
O vento norte nos traz notícias
De infâncias margeadas pelos campos
Molhados da chuva fina que passou.
Cheiro de mato verde, barro molhado,
Ovelhas no pasto devorando o capim.
A matilha de cães em busca da caça
E a armadilha onde caí ao fim da tarde.
O vento norte me faz rememorar
As idas em junho para o engenho
De seu Pedro Alves, onde nos tachos
O mel da cana era farto e soberano.
O bagaço da cana, os bois na moenda
O sino da igreja da matriz chamando
Para a hora do Angelus e a novena.
O vento do norte me traz paisagens
De uma existência que parece outra,
Por conta do tempo já tão avançado.
Das águas escorrendo nas coxias;
As barragens feitas para segurá-las;
Do velho oitão da casa de minha avó,
Onde brincava com os ossos
Formando a fazenda de gado que nunca tive.
Doces lembranças de um passado
Ainda tão presente em mim, toda vez
Que o vento sopra acordando em mim
As lembranças que deixei tão longe.
Um cão que ladra na noite silenciosa.
O apito do guarda-noturno. A voz
Do vento norte ruminando em mim
Todas essas lembranças. Agora mesmo,
Ele soprou no beiral da minha janela.
Eu o escuto, mergulhado em sonhos,
Para aliviar o passado que não volta nunca.