terça-feira, 7 de abril de 2015

Um abraço pra ti, Fortaleza



Nada de novo é tão novo
Quanto verdades antigas
Como dizer que é do povo
A voz de Deus que ele abriga.

Por isso faço dos cantos
O encanto de teu mistério
Cidade minha de encantos
Que me faz sair do sério.

Nesse louvor que hoje rezo
Do verso meu que te faço
Tenho só uma certeza

És o amor que eu mais prezo
Por isso dou-te um abraço
Maior do que és Fortaleza.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

SIMÃO, O QUE CARREGOU A CRUZ DO CRISTO



Eu estive no morro da Caveira.
Fui um dos apedrejadores do condenado.
Eu o via andar pelas ruas da Samaria,
ora cruzando as margens do Tiberíades,
ora em direção ao reduto dos galileus,
quase sempre sob a escolta de alguns homens,
que pareciam lhes ser útil,
mas que na hora nona sumiram da vista dele.

Como ele sofreu! 
Eu o acompanhei nas vielas tortuosas da Jerusalém, 
desde a noite de seu aprisionamento 
no monte ornado por oliveiras, 
próximo ao jardim do Getsemani.

Eu vi quando a soldadesca o fez prisioneiro, 
atendendo a ordens do sacerdote Kaifas,
o que se vendera aos invasores romanos
à custa de nenhuma serventia.
Em momento algum ele reagiu à prisão,
ainda que um dos três homens que o acompanhavam chegasse a puxar a espada
e ferir com um golpe a orelha de um pretoriano.

Posso até dizer que busquei ouvir aquele moço,
de estatura considerável e de beleza inaudita,
de tez da cor do fruto da amendoeira madura,
cabelos repartidos à maneira nazarena,
e que tinha no olhar uma ardência 
de quem enxergava o infinito das coisas.
Fitá-lo de frente, era sentir as nuances 
de sua alma falando ainda que em doce silêncio.

Quantas vezes sai do campo, 
para ouvir seus discursos revolucionários,
conclamando a todos a ignorar o opressor
e a pagar o devido tributo à Roma dos césares.
Como entender alguém dizer que viera anunciar 
um reino de libertação do povo da Judéia,
se a sua corte era formada por um punhado de miseráveis que mal tinham onde curvar a cabeça.

Cheguei até a me comover, durante a caminhada,
vê-lo tropeçar ao local de sua pena de morte.
Em seu corpo, dava para se ver claramente,
as marcas do látego de impetuosas mãos romanas, 
cravadas em suas costas. Marcas de maldade!
O que fizera esse indivíduo para merecer
o castigo de tiras de couro, sobre as quais fixadas estavam bolinhas de chumbo e pequenos ossos?!

Eu vi a turba ignara acompanhar o cortejo,
aos gritos de vingança e ódio, como se ali estivesse 
o mais condenado dos condenados.
Uns lançavam pedras e objetos contra ele.
Outros, o maldiziam, cuspindo em sua direção.
Uma mulher chorosa, acercou-se dele,
estendeu os braços em atitude de piedade. 
Disseram alguns presentes, tratar-se da mãe dele.

Eu estive tão próximo a esse homem,
que um dos soldados que o atormentavam,
ao vê-lo fraquejar, caído, ensanguentado
e sem forças para continuar, puxou-me pelo braço 
e obrigou-me a carregar a haste do seu martírio.

Em casa de Joana de Cusa, quantas vezes, 
tive oportunidade de ouvi-lo falar 
sobre um mundo melhor a quantos O seguiam 
e de promessas de libertação do povo.
Vi ensinar lições de bonomia, como nunca antes alguém ousou dizer – e o mais incrível,
esse condenado viveu a prática de seus ensinos
com a intensidade de quem previa ser curta
a transitoriedade de seu tempo entre os homens.

Meus ouvidos estiveram tão próximos do mártir, 
que ainda hoje tenho a impressão de ouvir
as marteladas dos romanos cravando os pregos 
nas mãos e nos pés do quase moribundo.

Quando na nona hora, daquela tarde angustiante,
o sol desapareceu antes do fim do dia
e uma tormenta varreu todo o lugar
afastando os curiosos dos pés do crucificado,
eu vi aquela que seria a mãe acercar-se do filho
e notei o esforço dele em querer dizer alguma coisa 
à senhora aflita que não consegui ouvir.
Ela abraçou os pés ensanguentados do filho,
em dolorosa atitude e um jovem moço,
que estava ao seu lado, conseguiu arrastá-la dali.

Como eu já disse, eu estive no morro da caveira.
E vi quando o homem chamado Jesus,
pendeu a cabeça para o lado num suspiro final. 
Tive vontade de chorar 
diante da enorme solidão daquele homem,
- ali, largado, abandonado, à sua triste sorte -,
mas meus filhos Alexandre e Rufus, 
intercederam que já era tarde 
e precisávamos fazer a viagem de volta à Cirene.



Eu estive no calvário e carreguei a cruz do Cristo.