domingo, 13 de março de 2016

Histórias de Nicó

Por decerto, deves estar lembrado de Nicó, o filho de seu Brito e da dona Dita do Vale, que nasceu no sopé da serra das Flores e que, aos seis anos, tinha um sonho: o de se vestir de anjo na festa da padroeira, só para coroar Nossa Senhora. Do mesmo modo, lembrar-se-á que padre Zito, o pároco da cidade, chegou a espraguejar com tal ideia, já que coroação de santa, é tarefa que só anja poderia fazê-lo. Foi preciso mobilizar mundos e fundos – o pai ameaçou até cortar a ajuda para a quermesse depois do novenário – até que tudo se arranjasse. Pois bem, Nicó voltou a cometer outra dessas.
Na escola, dona Laurita, a professora de religião, depois de pregar a necessidade de todos viverem no bem para alcançar o paraíso, pediu aos alunos que levantassem a mão aqueles que desejavam ir pro céu. Todos o fizeram, a exceção de Nicó. Ataboalhada com essa reação, ela evitou saber a motivação, com receio que a explicação do ‘maluvido’ pudesse estimular outros alunos a agirem tão sacrilegamente. “Abram o livro na página seguinte”. No recreio, o diretor mandou chamá-la.
Soubera através da pequena Patrícia do seu Policarpo, que fora arredar o acontecido. “Que história é essa de aluno que não quer ir pro céu?”, indagou seu Vicente Brilhante, penteando a cabeleeira gumêzada de glostora. “Foi um deslize do filho da dona Dita. Não quis levantar a mão, quando indaguei quem gostaria de ir pro céu”. “Mas isso é o cúmulo!” tonitroou o diretor na pequena sala.
Não é preciso esticar muito a baladeira pra dizer que os pais de Nicó foram chamados, no dia seguinte, a fim de tomarem conhecimento da leviandade do filho. Dona Dita, ao saber do que se tratava, debulhou-se em lágrimas, benzendo-se toda. O pai bufou de raiva, muito embora no fundo achasse aquilo, ser coisa de criança, que o diretor não devia levar tão a sério.
“Nada disso, seu Brito. Essa é uma escola de família, onde todos somos católicos, apóstolicos, romanos. Onde as instruções do santo catecismo devem ser levadas no maior rigor. Quem não estiver de acordo com os nossos postulados tem que procurar serventia noutra casa”.
Eis que chega à sala, Nicó e dona Laurita. Dona Dita escondeu o rosto num lenço amarelado. Seu Brito deu-lhe um peteleco. Seu Vicente admoestou o pai a ser mais severo com o ‘traquina’ quando chegasse em casa. E dona Laurita puxou a conversa.
“Meu filho, eu pedi essa reunião com o diretor e seus pais, para que você se explique melhor, porquê não quer ir pro céu, como todos os outros garotos?
Nicó, cabisbaixo, resmungou algo a que o pai disse:
- Fale alto!
- Pai, a professora perguntou quem queria ir pro céu. Eu num queria.
- Maldito! – gritou dona Dita, levantando-se da cadeira de palhinha do gabinete.
- Mas meu filho, isso é uma blasfêmia! – ouviu do pai.
- É não, pai. Dona Laurita perguntou quem queria ir pro céu. Se ela tivesse me perguntado porquê, lá na sala, eu teria dito que eu tinha que voltar pra casa depois da aula.

ANTES QUE SEJA TARDE

Antes que seja tarde,
é preciso compreender esse tempo de mudanças;
Onde muitos se identificam com a desordem;
poucos, com a quietude
Onde as ruas estão repletas de adultos,
agindo como crianças indolentes;
ao mesmo tempo lotadas de menores
que se desumanizam adulterando-se.
Antes que seja tarde,
Preferível é correr o risco de não ser achado,
Do que se perder inutilmente.
Achar-se só, com suas ideias próprias  
Do que ser solitário em meio a multidão.
Ainda precisamos de lideranças
que nos indiquem caminhos
e não de líderes que nos estorvem
com seus princípios inadmissíveis.
Antes que seja tarde,
É preciso amanhecer sereno,
Do que anoitecer sofrido.
Comungar esperanças,
Do que vomitar o caos.
Antes que seja tarde,
Amanhecer é preciso.
Amanhecer
Ser amanhã
Amanheceremos

Amanhã seremos.