terça-feira, 27 de março de 2012

OS SONHOS, ÀS VEZES, NOS CONTAM HISTÓRIAS INCRÍVEIS


A canção de ninar da baleia mãe

Aquele não era um fim de tarde comum mesmo. Havia algo estranho no ar.
Pela areia da praia, um vento brando soprava, contrário à algazarra do bando de jovens que atraíam a atenção de todos.
Eles formavam um círculo em torno de algo estendido no chão. Na cabeça de cada um deles, pequenos aparelhos em forma de ‘bobbies’, instalados como cateteres de onde escapavam filetes de luzes, como circuitos em choque.
Avancei até o grupo. Achei passagem entre eles e descubro, espantado, a presença de uma baleia encalhada na areia. É uma mãe que, junto a um filhote, vieram dar na areia e tentam com esforço retornar a água.
Debruço-me sobre o enorme animal. Ele emite uma espécie de canto, que em meio a sonoridade deixa escapar aos meus ouvidos a visão onomatopéica de sua letra:
“O naúma canduma securidá
Nausa conda candira secá...”
Ao ouvir a canção eu digo a todos para saírem de perto, pois a baleia precisava embalar o filho-criança para “dormitá-lo” (sic).
As pessoas não acreditam em nada do que falo. Riem de mim: uma baleia cantora! Que deseja ninar o filhote!... Eles não dão conta do meu apelo. Dizem até que não existe nenhum som vindo do gigante mamífero. Mas eu ouço o lamentoso canto da mãe, aconchegando para perto de si o filho semi-morto.
Alguém da turma, que reconheço no plano físico ser um antigo companheiro de trabalho, escreve algo na areia. Surpreendentemente, as letras ganham brilho. Iluminam-se com a escrita. Enquanto escreve, fala. Diz serem poemágicos, aqueles versos que escreve na areia e, magnificamente, a sua voz sai com imagens holográficas que aparecem no ar em cima de nossas cabeças.
“Sou divino, sou humano, sou da Terra, sou do Céu...”
Tenho a impressão que a baleia riu. E ouço ela dizer (sim, uma voz me traduz simulaneamente) que está cansada do humano mundo, precisa retornar ao oceano.
Quando digo isso a Pedro, o tal poeta, ele considera que eu esteja em alguma dimensão alfa. “O homem que veio da terra, deve ter fumado algo para nos divertir com histórias de não se contar...”, diz ele.
A baleia se agita. Contorce-se. Todos ali acham que ela se debate. De que está nas últimas. Mas, na verdade, ela apenas dança. E atrai para perto de si, uma vez seguinte o filho que eu imaginava morto.
“O naúma canduma securidá
Nausa conda candira secá...”
Então, tenho uma inspiração de que poderia auxiliá-la a sair dali. E peço que ela dance mais. Aos poucos, “a dança” vai abrindo uma espécie de canal que fazem com que as ondas do mar consigam atingir o local onde a mãe e o filhote estavam. As águas vão chegando e aos poucos, os dois animais conseguem chegar até um lugar onde o mar os envolve num abraço.

Do meio das ondas, a cauda da baleia se ergue enorme, belíssima. Como se acenasse para todos nós, despedindo-se. De longe, ouço a cantiga.
“O naúma canduma securidá
Nausa conda candira secá...”
Na praia, algumas pessoas revelam decepcionadas com a minha atuação.
- Que pena, daria uma ótima refeição – diz o dono de um restaurante.
- Num aquário, atrairia turistas – um administrador de empresas.
- E o óleo dela, que combustível não daria para nossas luminárias...
- Bichinha, exclama o que imagino ser uma solteirona – estava igual a mim. Encalhada. 


Alguém acreditaria se eu falasse que tudo isso foi um sonho? Pois acredite. Eu o tive na madrugada chuvosa desta terça feira.