segunda-feira, 15 de julho de 2019

APOSENTADO RIA


Seu Lucélio, filho de Otacílio e Emengarda,
vivia ansioso pra chegar a aposentadoria.
Trabalhou feito burro de carga, como guarda
do serviço público, nos tempos da hospedaria.

E nessa esperança, de ver o que lhe aguarda,
o tempo foi passando e em meio a correria
chegou a se aposentar. Hoje da mansarda
de sua choupana, diz não ter mais alegria.

O que recebe por mês mal dá pra ser contado.
Pra compensar a renda, vive a pedir esmola
e diz ser dessa forma que a vida lhe socorre.

O sonho de futuro, morreu lá no passado;
vive de esperança, pois aprendeu na escola
ser ela, na verdade, a última que morre.

ANOTAÇÕES PRECIOSAS

ANOTAÇÕES PRECIOSAS
Dos velhos sonhos incomuns de toda a infância, 
um só ainda lembro com constância: 
o dia que cavalguei um unicórnio 
e a relva toda iluminava-se à sua passagem.
Eu tive sim um par de unicórnios. 
Um deles chamava-se Relâmpago. 
Era comum, ir num trote rápido, de Alkazhar a Neptuno, 
buscar água de colônia para meus banhos matinais.
Hoje, que estou centenário e desprendido de materiais vinculações, 
eu só tenho deles a saudosa lembrança.
Um dia, em outro corpo, em outra esfera planetária, 
pretendo criar unicórnios em pastos da Lua, 
só para deixar com inveja os que lerem essas preciosas anotações 
e acharem que é impossível ainda ter sonhos na minha idade.

sexta-feira, 12 de julho de 2019

A LENDA DO FIM DO MUNDO


Nem com milagre do Cristo


sim, confesso
eu já fui um ladrão
roubei rosas de um jardim
por coisas do coração

e tem ainda mais:
fui também marginal
matava o tempo dos outros
por achar isso normal

e tem ainda mais
eu já fui crente
de que Deus repartiria 
a felicidade com a gente.

hoje, eu não sou
nem mais devoto
dos canalhas que elegemos
através do nosso voto.

o mundo mudou 
mudou e pelo visto
não melhora mais 
nem com milagre do Cristo.

quarta-feira, 10 de julho de 2019

ESQUECI DE PAGAR AS COMPRAS

Dia desses eu tive um desprendimento. Essa coisa do 'eu' sair do corpo e volitar pela dimensão dos sonhos. Os místicos chamam de viagem astral e dizem fazê-la com a maior naturalidade. Eu me vi em Iguatu, cidade do interior cearense, onde já morei. Numa mercearia eu ia comprar um quilo de pedras. Curioso né? Mais ainda de saber que a dona da bodega achava a coisa normal e ao pesar as pedrinhas me dizia:


- Tudo pedrinha de primeira. Da melhor qualidade. Seixos do Jaguaribe que a gente apanha ali no Alto do Jucá.

Pois num era mesmo! Sabe aquelas pedrinhas que a gente encontra na beira dos rios? Seixos, isso. Minúsculas, lavadinhas, bem torneadaszinhas, como se a mão de um bom artífice as tivesse esculpidos com devotado brio.
Pois bem, o sonho me levara a essa mercearia para comprar pedras... para uma sopa! Sopa de pedras.

Eu também fiz essa cara de espanto, como você acabou de fazer. Mas fazer o quê? Era sonho. E em sonho tudo é possível.

Comigo, mais duas senhoras de iguais aparência, esperavam a hora de serem atendidas. A dona da mercearia, ao me ver fez uma cara de surpresa e pensou:

- “Meu Deus, olha quem está aqui? Aquele homem da tv! – pois eu lia o pensamento dela. E nem tinha aqueles balões das histórias de quadrinhos. Era sonho.


Eu pensei de ela se surpreender com a roupa que eu estava: um calção véi e um par de havaianas de tiras "que não largam cheiro". Nu da cintura pra cima, naquele pequeno armazém de secos e molhados da rua da feira, estava eu. Era sonho.
No fiteiro sobre o balcão, me deliciei ver duas batidas, dessas de moagem – as bichinhas pareciam ter saído do engenho indagorinha.

Quando a mulher voltou para me entregar as compras, notei que uma das clientes havia saído. E deixara o celular sobre o balcão.

A senhora da venda pediu-me que eu verificasse se havia algum registro no número do aparelho que a identificasse. E eu vi, tinha. O nome dela, o endereço onde morava – na praça da matriz de Senhora Santana - o número do celular e uma foto. Resolvi ir até lá devolver-lhe o objeto.

Quando ia me retirando da bodega, ainda deu pra ouvir a vendedora cutucar a cliente e dizer baixinho:

- Num parece aquele homem da tv?

A cliente me olhou, de alto a baixo, com um ar de muxoxo danado e disse entre os dentes:

- É não, mulher. Homem de tv ia andar tão malamanhado assim! – e deu uma rabissaca.

Atravessei a rua em direção à praça da matriz, enquanto carros passavam, aproveitando o sinal aberto para eles. E eu passava por entre eles. Isso! Era sonho. 

Foi nesse instante que fui acordando, lembrando-me de todos os detalhes, como estou contando agora.


O meu celular tocou. Saltei da cama. Tirei o aparelho da tomada onde estava carregando. Atendi. Sabe quem era? A mulher da bodega pra me contar que a dona do celular não recebera o aparelho, que eu prometera deixar na casa dela.

Dava pra estarrecer! E estarrecei. Ora, eu eu já não estava mais sonhando. E como é que alguém, lá da dimensão da fantasia, conseguia ligar pra mim que estava desperto? Não era mais sonho. 


Como se fosse pouca essa surpresa, uma outra veio de carona. A voz da mulher, mudou o tom e gritou no meu ouvido:


- E tem mais: o senhor esqueceu de pagar as compras.

sábado, 6 de julho de 2019

LIBERDADE


eu nem lembro quando foi que fui;
só sei que nada sei do que sabia ser
na língua nossa que já foi do Rui
prosar em verso assim é meu dever

mas como quem não quer assim anui
ser a esperança a última a correr
nasci natimorto o que me constitui
Nonato esse nome ainda hoje ter

eu faço versos loucos, disparates
crio do nada o tudo que é poesia 
só pelo simples desejo de fazer  


se ao me ler, provoco-te embates
é que o verso tem a mesma rebeldia 
das aves livres que só querem ser. 

sexta-feira, 5 de julho de 2019

VIVER O BEM POR OFÍCIO


eu venho de vários caminhos
por estradas muitas passei,
entre flores e entre espinhos
confesso que aqui cheguei.

trago em minha alma eu sei
resquícios de descaminhos 
das armas que empunhei
contra meus próprios vizinhos.  

o tempo, senhor da razão
cobrou-nos a peso de ouro
o troco em grão sacrifício.

morri e na reencarnação
encontrei novo tesouro
viver o bem por ofício.



Pedra sobre pedra


Oriundo da Idade da Pedra, eu sou.
Com ela edifiquei o mundo.
Pedra sobre pedra, 
Elevando as pirâmides sagradas;
Construindo os totens edificantes,
alinhando nas construções de Nazca
o protótipo das imagens de Páscoa,
até chegar ao tempo das catedrais.

Usei das pedras dos templos
para dobrar os joelhos dos fiéis.  
edificar as santas imagens
e elevar os edifícios e viadutos.

Elemento primordial das construções.
Nela, o divino veio a Moisés
Lázaro apresentou-se aos vivos
até ocultarem a mais filosofal

Os tipos da imprensa, eram pedra
que já era na escrita das cavernas.
Nos dias atuais, é ainda a pedra
que, anestesia o cérebro dos adictos
Que singulariza os computadores
como a pedra de toque desta era.
que faz de Pedro o representante
do Altíssimo no planeta de pedras.

Se hoje morto sou, vivo petrificado
no tempo que, como um “rolling stone”
não para e avança por entre
as pedras do caminho (de Drummond).

quinta-feira, 4 de julho de 2019

P DE POESIA: O PATRÃO E O EMPREGADO

O patrão e o empregado
ilustração jorge arbach

Mão estendida para o contato, com o tato;
armada mão, conversação sem conversão
de um lado o labor que labuta por seu trato
do outro lado o lado pacto, poder do patrão
mão estendida de quem não vê desacato
no ato simples de quem faz negociação; 
mas do outro lado sempre há um “staccatto”
que impede o lado bom crescer com a nação
vejo isso no dia-a-dia dos nossos bancários
dos operários, dos humildes sem patrões
que lutam pela vida sua e a de familiares
pra melhorar se for possível seus salários
e acreditar que não haverá mais senões:
já que a mão do outro esconde outros ares.
por Nonato Albuquerque

domingo, 30 de junho de 2019

SABEDORIA INDÍGENA

SABEDORIA INDÍGENA

Não guarde mágoa no teu coração bravio. Ele deve ser repositório de tuas muitas virtudes.


(Kraoni Kronos)

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Do amor poesia e dessas coisas singulares - 21 DE JUNHO 2009

Do amor poesia e dessas coisas singulares

De Nonato Albuquerque para o pai Mário


O amor tem formas. Só o coração entende.
Nutre-se de luz -
'lumina essência,
Bondade fecundada que nos embriaga de prazer.

De seu cálice dourado,o nutriente do amor
derrama o néctar
supremo da Vida
- suave perfume que se esparge entre amantes.

O amor é um sonho - como adoçam os poetas.
Alegra-se na dor
- adormescência
e reflete sobejamente na alegria de sê-lo...

De cada gesto do qual o amor se inspire,
hálito divino
que entre nós
rescende, como nunca soube-se traduzi-lo...

O amor é benção - e, nele, nos fortalecemos.
Augúrio de paz e
Ciência - paciência!
Motivo único para o existir da humana idade.

Desse amor que transmuta tempo e espaço,
que vai do corpo a alma
- espiritualidade!
a divina presença se corporifica e se nos revela...

sabedoria Indígena

Dia virá que o Tempo moerá até nossos ossos. Lembrarão de nós com inquietante saudade. Ai dos que nos sucederem. 

(Kraoni Kronos)

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Versos azuis

O verso da manhã que eu não compus
está escrito no olhar de quem se ousou ser.

O som da canção que não ouvi,
ecoa na imensidão do mar que existe em mim
e que ouvido nenhum ouvirá.

Eu vi a luz de que falam os místicos,
bebi do néctar no qual se embriagam aqueles que são invisíveis.

Hoje, sou um deles,  amargando a saudade que dizia ser azul.
Carne por fora;  espinho por dentro.

Caio do Afetuoso Afeto
Junho,  2017

sábado, 22 de junho de 2019

SABEDORIA DO POVO INDIGENA

A boca fala para que os ouvidos ouçam e aprendam. Quando falo e ensino, não esqueço: os ouvidos mais próximos de minha boca são os meus.

(Cacique Kraoni )
Vive em mim a alma pura de tantos poetas
que não se cansam do verso, nem da rima
Passaram séculos, para baixo e para cima
marcados como se fossem velhos profetas

Vive em mim o delírio de alguns exegetas
que beberam nas fontes e mudaram o clima
amantes das dores que o mundo lastima
Por desnudarem as ideias mais secretas.

Vive em mim isso tudo que chamo sagrado,
por ser de outro plano que não se nivela
ao esforço comum que se aplica na Terra.

Fazer verso do ontem, mas não antiquado
Até quando lhe inspire essa musa donzela
A cobrar vidas que essa outra vida encerra.
Muitas luas passarão até que a normalidade da Vida nos ponha novamente a caminho. Vida,  só uma; existências muitas.
HB
(K. Kronos)

sexta-feira, 21 de junho de 2019

Textos meus da sabedoria indígena que resgatei no Facebook

Há cerca de um ano, escrevi alguns pensamentos, com intuição completamente de temas indígenas aos quais resolvi assiná-los como Cacique Kraoni Kronos. Não me peçam pra dizer de onde tirei esse nome, não saberia explicá-lo. Mas resolvi postar no Facebook e, hoje, a plataforma resolveu citá-los entre as lembranças do dia. 

SABEDORIA DO 
POVO INDÍGENA

1. Se teu filho não demonstra vocação para seguir a mesma tradição de guerra dos nossos ancestrais, guarda o zumbido de tua ira pros teus inimigos. Teu filho é filho de teu sangue, mas a alma dele não te pertence. É espírito que o vento soprou para que tu, sim guerreiro, possas ajuda-lo a definir o rumo ao qual estabelece sua natureza interior.
(Cacique Kraoni Kronos)

2. Quando fores à caça, lembra-te que não é o ódio que deve alimentar o ato de tirar a vida dos nossos irmãos inferiores; mas o senso de gratidão por ele colaborar na tua própria sobrevivência.
(Kraoni)

3. Por voar nas alturas, não significa que a águia seja melhor do que o mais simples dos répteis rastejantes. No reino das coisas vivas, ser humilde está na lista-guia de todo bom guerreiro.
(Cacique Kraoni Kronos)

4. Por voar nas alturas, não significa que a águia seja melhor do que o mais simples dos répteis rastejantes. No reino das coisas vivas, ser humilde está na lista-guia de todo bom guerreiro.
(Cacique Kraoni Kronos)
5. Se você diz amar o Grande Espírito e faz-lhe oferta, mas foge ao que a consciência manda, sua oferenda não passará do rés do chão.

O LADRÃO DE BAGRE IDAH

Texto de Nonato Albuquerque


Na centenária Pérsia de outros tempos, um velho ladrão, analfabeto, chamado Idah Amir, caíra certa feita nas garras da soldadesca, acusado que fora de subtrair dezenas de bagres que estavam à venda no mercado. 


Na prisão, os colegas de mesmo infortúnio gozaram com a falta de sorte e a "incompetência" do inditoso ladrão em só roubar peixes. Disposto a responder ao que classificou como ofensa e desafio, Idah prometeu aprimorar seus métodos no que dizia ser a arte do crime. Tão logo fosse liberado, daria um golpe tão majestoso que o faria ser citado para sempre pelas terras do Oriente. 

A promessa se cumpriu. Num dia aprazado, em verdade noite de lua cheia, Idah deu trelas ao seu projeto. Elegeu um dos prédios mais vistosos da belíssima jóia que era Bagdá e resolveu penetrar no que lhe diziam ser a biblioteca pública da cidade. Contudo, mal adentrara no recinto, fora flagrado pelo eficiente serviço da segurança real, sendo capturado. 

Conduzido de volta aos porões da antiga prisão, o velho ladrão de bagres revelaria aos companheiros de cela que, mais uma vez, a inditosa amiga sorte se dispersara dele, fazendo por isso cometer um grave erro de estratégia ao escolher aquela vistosa construção. 

- Pelas barbas do profeta! Naquele prédio enorme num tem nada, nada, nada de valor. Só tem livros! Meu sonho é voltar a agir no mercado. 

Sem ter noção nenhuma da riqueza encrustada na leitura, a cabeça de Idah era bagre só..

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Báratro de dor

eu ouço anjos 
nas vozes dos meninos, aquietando silêncio. 
Nas preces dos que nada pedem a Providência
na alegria de quem não guarda mágoa alguma 
de quem lhe tirou o pão que lhe sacia a fome. 

eu vejo santos
na sagrada inocência de adultos que, virtuosos, 
não se arvoram em reclamar alguma prioridade 
e na fila dos comensais aguardam tranquilos 
a boia anunciada pelo profeta para os fins dos tempos. 

quem tem poder  
de separar o joio desse trigo que abunda nas ruas 
e que, nos lares esvaziados, consomem-se todos
no aguardo da promessa crística de alçar ao paraíso. 

a vida é longa
para a brevidade da existência que nos dá a matéria 
a fim de afugentar os miasmas de outras jornadas 
feitas a fogo e ferro, no báratro de dor que é a Terra. 

MAYA