Quando através do sono nos libertamos temporariamente do escafandro corporal, volitamos por entre a dimensão do eu mais puro e visualizamos cenas que, geralmente, só os sonhos conseguem externar. É do substrato desses sonhos - e da criação poética - que se constitui este diário, revelando a incrível magia da dimensão da espiritualidade.
A maioria das pessoas pensa que deixar o mundo material é integrar-se (ou desintegrar-se) no nada. Povoa ainda na cabeça de muitos, a idéia de que morrer significa largar tudo e se perder até da memória dos mais queridos.
Esta noite, sonhei que estava cumprindo mais um exame. Era sonho ou desprendimento. Eu ainda não sei atinar bem quando é uma ou outra coisa. Sei que estava fazendo uma prova.
É incrível como a cada fim de mes, eu adentro salas de aula; convivo com turmas que desconheço, mas que são íntimas enquanto sonho e, como me preocupo a cada final, em dar uma (ou mais) resposta nas provas.
Eu sei que neste sábado eu ouvia (não via) alguém alguém fazendo uma pergunta e pedia que eu a transmitisse a uma pessoa que eu conheço. Eu não sei se vou ter coragem de chegar e dizer que nas nuvens, onde tenho um bangalô, alguém manda notícias.
Se ela me perguntar quais, eu nem saberia dizer. Sei que pedia para dizer, como se fosse esse o sinal de continuidade. O sinal de vida.
Interessante, nesses sonhos e desprendimentos, provo a mim mesmo que o mundo é muito mais do que veem os meus olhos. É muito mais além do que ouvem meus ouvidos. É muito mais infinito, do que penso - e, jamais, aquela estória de que ao morrer, terminamos. E sobramos na paisagem, via pedra sepulcral, por onde voam andorinhas ao final de cada dia...
As ruas da outra dimensão são constituídas de uma essência tão etérea que a visão humana não consegue alcançar a não ser quando dispensamos a vigília e caímos no sono que nos promove desassociarmos do corpo.
São nessas ocasiões em que desprendidos, atingimos a vibração necessária para adentrar no que se configura como o mundo dos espíritos e então convivemos com a realidade que ali se estabelece.
Hoje foi o dia em que encontramos uma antiga interna da Colônia de Hansenianos de Maracanaú. Guilhermina é o nome dela. Desencarnou no ano passado. Sempre que visitamos o hospital íamos conversar na residência dela e, no seu jeito curioso de tratar todo mundo, ela fazia que brigava comigo por ter me ausentado da última visita.
Pois hoje a encontrei num carro. Dirigindo. E aí é que vem a explicação da mensagem que o espírito fala e o cérebro guarda a imagem para conseguir traduzi-la quando desperto.
Eu me surpreendi com ela dirigindo um táxi e ela me mostra os pés sãos, reconstituídos - em vida na matéria, ela demonstrava não gostar de mostrar os seus pés deformados pela doença - como a dizer que já estava 'dirigindo os seus passos", "conduzindo-se por ela mesma".
Mas o que mais me tocou nessa efusão de amizade e gratidão foi o recado que ela me pediu para retransmitir ao Cantal (Wilson Cantal é o coordenador do Grupo Espírita Bemvindo à Caridade).
"Avise a ele que meus filhos estão metidos com drogas..." terminava com um quase apelo em favor da vigilância sobre eles. Desperto, telefonei ao Cantal e ele me confirmou que uma filha dela anda com problemas. Vamos tentar tudo para atender a um pedido de quem está do outro lado, mas permanece aqui, ligada pelos fios do coração.