
Quando através do sono nos libertamos temporariamente do escafandro corporal, volitamos por entre a dimensão do eu mais puro e visualizamos cenas que, geralmente, só os sonhos conseguem externar. É do substrato desses sonhos - e da criação poética - que se constitui este diário, revelando a incrível magia da dimensão da espiritualidade.
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sexta-feira, 30 de dezembro de 2022
2023: o resto vem por acréstimo

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022
INCELENÇA AO SENHOR DOS ASTROS
Iluminado
Senhor dos astros,
a quem eu ouso
assim falar
não esqueço
nunca que em nossos rastros
a luz do
amor sempre há de estar
Acende em
nós, tua verdade
Que ensina
a sina do céu chegar
Nosso ideal
felicidade
Que o
coração deixa brotar.
se, porventura, ganhe eu mais anos
nunca se
perca esse pensar
de serem
teus todos meus planos
que essa
incelença venha cantar
e que o amor
teu mais sublime
possa em
teu chão sagrado estar
e as venturanças
do bem domine
toda
colheita em teu pomar.
domingo, 25 de dezembro de 2022
"SÊO" ESPADA É ESPADA
o vizinho, atarantado, sempre me troca o nome
e em cada vez que fala me dá outra identidade
tento corrigi-lo, mas ele rapidamente some
desculpando-se ser isso uma "coisa da idade".
Já fui chamado de Alberto, Machado e tome
João, Pedro, Nirvando, Marcos e até Andrade
mas o mais terrível foi ouvir da boca do 'ome"
me chamar de Laurinda, perdi a racionalidade.
O senhor parece ser louco, gritei enraivecido.
me trocando o nome e agora até o sexo
eu sou espada, e não lhe disse mais nada.
Ele pediu desculpas e se disse convencido
de que não erraria mais com nomes sem nexo
quando me vê agora, "como vai seu Espada".
sábado, 24 de dezembro de 2022
A VISITA DO MESTRE
Nos lares onde a fartura é expressiva e dominante, árvores recheadas de presentes; vozes em animadas conversas - a maioria dando
margem a lembrança de Noel, o prestimoso velhinho que ganhara os altares dos
corações humanos, com exemplar significado.
Mesmo nos lugares onde se celebra o seu
advento, missionários de denominações diversas roteirizam o passado histórico
do menino que, um dia, dividiu o calendário terreno. Nas preces ao
alto, buscam seu nome em petitórias rogativas.
O exemplo do amor, empregado por ele no
exercício de sua primorosa pedagogia, ganha da maioria dos homens apenas o
verniz teórico, enquanto a prática sempre se dissolve nas questiúnculas e refregas nas quais a fraternidade, simplesmente, se dilacera.
Quando é hora de voltar aos páramos celestes costuma derramar bênçãos de luzes sobre o Planeta, e por conseguinte nos corações e mentes daqueles que convivem a transição para um patamar mais evoluído, dependência única do estágio de prática do bem que deve ser a missão de cada ser identificado com os seus ensinos.
Por isso, a visita do mestre reanima nossa energia.
sexta-feira, 23 de dezembro de 2022
quinta-feira, 22 de dezembro de 2022
O MÉDICO QUE MORAVA NO ANDAR DE CIMA
Ele trabalhava
para eles, de qualquer maneira. Eles lhe davam um litro de leite, quando ele
curava uma dor de garganta, ou um pão quando curava uma perna quebrada.
Dr. Sorenson não
podia pagar um escritório regular. Ele praticava no quarto em que morava, no
andar de cima de um estábulo. Na entrada ele colocou uma pequena placa simples
que dizia: "DR. SORENSON – NO ANDAR DE CIMA".
Do filme "Ambiciosa" (1947)
sábado, 10 de dezembro de 2022
DICOTÔMICA TORTURA
O rio, ao confundir-se com o imenso mar,
questionou consigo já não ser mais rio.
- É esse o destino que sempre nos levará
a tal da correnteza nesse desafio?
O mar rugiu mais forte com seu ar bravio
“Tudo o que era antes nunca mais será”.
A tese panteísta beirou o seu vazio
embora noutras águas viesse ele dar.
E em meio à dicotômica tortura
O rio avaliou ser isso lídima traição
que o rei Netuno impôs à toda criatura
que não rezasse em sua cartilha não.
O rio então desejou renascer rio
Pra estar perene em qualquer estação.
sexta-feira, 9 de dezembro de 2022
quinta-feira, 8 de dezembro de 2022
AMOR APAGA PRECONCEITO
De pai, mãe e de avós.
Nos ensinando que nego
Era diferente de nós.
Um dia eu peguei apego
A uma menina cuja voz
Me deixou surdo e cego
de amor assim tão veloz
Contrariando minha linha
casei c´um esse amor tamãe
Que o tempo mostrou o efeito.
Meu pai adora a negrinha
sua neta, e diz pra minha mãe
amor apaga preconceito.
DANÇA SOBRE CADÁVERES
DANÇA SOBRE CADÁVERES
Nonato Albuquerque
Sobre cadáveres pútridos de
malgrados mitos
dançam-se loas pelo que já foi
transposto;
rogam-se aos deuses tempos mais
benditos
às forças novas que assumirão seu
posto.
Almas contaminadas de ódios,
esses proscritos
são de eras mentais geradas em um
agosto
Em meio a traições que marcaram
conflitos
E retemperados voltaram, como por
encosto.
Quem para usufruir desse passado,
a sua pauta
e revelar dos arquivos da grande
memória
a identidade que os céus guardam segredos,
seria da inteligência humana o
novo nauta
a revelar o perfil dos que
mancharam a História
e hoje voltam ao limbo para
carpir degredos.
terça-feira, 6 de dezembro de 2022
O ANJO ANDRÓGINO DE SEU TIBÚRCIO
O ANJO ANDRÓGINO DE SEU TIBÚRCIO
Nonato Albuquerque
Pense num sujeito grosso! Seu Tibúrcio. Pai de Nozim da padaria.
Num tempo onde mais se combate homofobia e outros preconceitos, seu Tibúrcio se
gabava de encarar a figura de “machão” do Lagedo – o nome do lugar onde nascera,
crescera e vivera dominado por um surto constante de raiva e ódio a todo tipo
de integrantes de LGBTQ+.
Desde mocinho, costumava dizer ter sido o maior rabo de saia do lugar.
Levava no papo quem caísse na sua lábia. E garantia ter pego 99% das mulheres
do lugar. “Só não cheguei aos 100, para livrar minha mãe”.
De todas, só Excelsa cedeu às suas cantadas e acabou caindo “nas
malhas da Justiça”, pois grávida antes do casório, o pai dela obrigou Tibúrcio
a casar-se frente a um juiz de paz ou teria que escolher entre os três Cs da sua
lei: cemitério, cova, cadeia. Era o delegado do lugar.
Em 45 anos de casados, seu Tibúrcio e dona Excelsa só tiveram um
filho, o Nozim, a quem o pai obrigara a votar no Mito, fazer campanha contra o
aborto, contra a implantação do comunismo no Brasil e “a invasão do movimento
LGTBQ+”, regra que ele próprio aditara. O fracasso de Bolsonaro no 2º turno, o
levou às manifestações em frente ao Tiro de Guerra de Lagedo, onde uma
enxurrada o fez desmaiar entre os “patridiotas”.
Levaram-no a um hospital. Diagnóstico: tuberculose, sendo induzido
ao coma. Quando despertou estava despido, deitado em outra cama, onde uma
mulher anunciara que ia fazer a maquiagem dele.
- Maquiage é a porra! Eu sou espada – gritou, mas ninguém parece
ter ouvido. Depois ela foi até a porta, chamou alguém e lhe aparece Nozim, o seu
filho.
- E aí, gostou do trabalho que fizemos nele?
- Está ótimo – disse acrescentando: “Ele só num ia gostar desse
batom que puseram nele”.
- Batom!!! Meu filho, me leve pra casa. Estão me querendo parecer
um viado...
A voz foi sumindo e uma outra figura de branco tirou ele da cama e
disse ter vindo buscá-lo.
Só deu tempo para olhar em torno e descobrir seu corpo, ali na
cama hospitalar, rosto com maquiagem pesada – com base, pó e batom... “que nem
uma drag”
Seu Tibúrcio achou aquilo, um fim de mundo. E era, de fato. Ele acabara
de esticar as canelas. E se viu diante de um anjo, com aspecto andrógino, que viera
lhe dar as boas vindas.