domingo, 14 de outubro de 2018

CONTRA A HOSTILIDADE BRASILEIRA DE 2018

A campanha eleitoral do segundo turno de 2018, devido a polarização e ao discurso de ódio que as partes acabaram convertendo, levou-me a escrever textos curtos nas redes sociais (Facebook), alertando sobre os riscos de ingressarmos em um ambiente ainda mais hostil e indesejável. Aqui estão alguns deles. 

ISSO NÃO VAI
ACABAR BEM (1)

Quando católicos e evangélicos na velha Irlanda começaram aquele perrengue danado, por disputas de cunho religioso, algum deles de bom senso deve ter dito: isso não vai acabar bem. E foi o que aconteceu: o país se dividiu em Irlanda do Norte e Irlanda do Sul.
Quando judeus e palestinos começaram a trocar insultos e pedras de baladeiras, um goy qualquer deve ter profetizado: isso num vai terminar bem. E veio a guerra dos seis dias.
Quando anarquistas e comunistas se desentenderam com a ditadura franquista, partisans dos dois lados acreditaram que aquele regime não daria certo. E a guerra civil confirmou a previsão.
Quando os alemães do nazismo adentraram às casas de judeus e começaram a removê-los de suas estâncias, obrigando-os a viverem em guetos, num ‘shabat’ qualquer da história, algum rabino deve ter anunciado: isso vai acabar mal. E vieram os campos de concentração e a ideia de Heinrich Himmler implantando a chamada solução final.


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ISSO NÃO VAI
ACABAR BEM (2)

Quando na década de 70 do século XX, a família al-Assad começou um regime ditatorial na Síria - que persiste até hoje - e, do ponto de vista religioso, os xiitas impuseram uma carnificina contra curdos e cristãos, um membro da igreja Maronita alertou: Isso não vai acabar bem". E não acabou.
Hoje, a guerra na Síria já ultrapassou um total de 470 mil mortes segundo o Observatório Sírio de Direitos Humanos e obrigou mais de 11 milhões de pessoas a sair de suas casas, buscando como refugiados lugares no mundo.
Quando retornou dos EUA depois de governar a ilha de Cuba, Fulgêncio Batista não aceitou perder as eleições em 1950 e aplicou um golpe em 1952. O jornalista Jules Dubois teria comentado com amigos: isso não vai acabar bem. E redundou na derrubada de Batista e o surgimento da ditadura de Fidel Castro, cuja sombra ainda persiste até hoje.
Quando o jornalista Benito Mussolini cria o movimento político intitulado "fascismo", sem nenhum aparato teórico abrangente, impõe uma luta contra a democracia. Membros da oposição chegaram a alertar: isso não vai acabar bem. E o movimento revelou-se xenófobo, preconceituoso, além de operar com o conluio de grandes empresas, negando direitos e liberdades fundamentais para se torar o poder executivo absoluto.

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ISSO NÃO VAI
ACABAR BEM (3)

Quando Sansão confidenciou à Dalila onde residia a sua força e poder - referindo-se à mente e não aos cabelos como tradicionalmente se popularizou dizer -, a irmã dela comentou: "isso não vai acabar bem". Resultado: veio o poder, a tortura, a cegueira de Sansão e ele sucumbiu no templo e no tempo, com as forças do império do terror.

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ISSO NÃO VAI
ACABAR BEM (4)

Quando souberam da prisão do Cristo, após a celebração da páscoa com os apóstolos, Maria de Cuza e Maria de Magdala, acorreram às pressas ao palácio imperial na tentativa de saber o que estava acontecendo.
Na ocasião, Pilatos fazia um plebiscito, a fim de que o povo votasse em quem desejava eleger para liberdade: Barrabás, o furioso detento que elegera o ódio e a violência como meta de vida, ou a Jesus, o primoroso educador que aclarava mentes e corações com seus ensinos. Ao saber da escolha do povo pelo primeiro, Maria de Cuza sentenciou: “isso não vai acabar bem”. E foi o que deu.
Traído por 30 dinares, Jesus foi submetido a um regime de força dos que diziam agir em nome de Deus "acima de tudo", mas que operavam sob as ordens da opressora política romana.
Preso, torturado, escorraçado nas ruas, sob o flagelo da cruz imposta pela guarda pretoriana e sob os apupos da multidão ignara, o nazareno - que aos 13 anos deixara a cidade e família para se preparar para sua missão terrena -, viveu trágica paixão e morte, decretada pelo farisaísmo da época e pela escolha a partir da falta de senso de um povo.
2 mil anos depois, ninguém lembra de Barrabás. De Jesus, porém..


ISSO NÃO VAI
ACABAR BEM (5_


Quando Monteiro Lobato, por volta de 1926, escreveu nas páginas do A Manhã, artigo criticando a posição do Brasil em não deixar aportar no Rio um navio comercial russo, com receio de que a ideia nova do comunismo pudesse acabar infectando a população brasileira, o autor recebeu intimação para comparecer à delegacia e dar explicações sobre o seu posicionamento. A esposa Mariinha confessou-lhe: “isso não vai acabar bem”.

Lobato escreveria depois: “Fiz o testamento e fui. Dei com um moço fino, muito longe do truculento Javert que esperava encontrar no posto”. O delegado era fã de seus artigos e, confessa ao autor que recebera “ordens de cima” para apreender seus livros; mas não o faria. Os que mandavam as “ordens” receavam, como nos dias de hoje, o comunismo.

Dias depois, Monteiro Lobato voltaria ao caso do navio proibido de atracar nos portos brasileiros indo para a Argentina, escrevendo: “(a ideia comunista) não infeccionou coisa nenhuma. Só serviu para abrir o apetite àqueles povos e lhes inocular o desejo de ter a sua visão pessoal da difamada Rússia”.