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quarta-feira, 9 de setembro de 2020

EU, ESSA PEÇA INACABADA

9 de setembro de 2017 Fortaleza 
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eu, essa peça inacabada
Nonato Albuquerque
Eu teço o texto de meus textos
com paixão (e compaixão...)
São linhas filtradas no meu próprio sangue,
que as palavras têm essa propriedade incomum
de injetar líquido na solidez das conversas.
Arremato as pregas de cada frase com fino trato,
e vou alinhavando as sobras com meu jeito de ser:
Sou operário de quem pensa seja eu poeta,
mais vítima do poema que seu próprio executor
Ah! meus tempos de diálogos travados em outras eras
onde o corte deixado pela minha lâmina-língua
fazia calar realmente os que não sabiam falar.
Hoje, distante de tudo e de mim mesmo, rebusco na memória perdida do tempo, alguma lembrança que me dê certeza de ser eu, essa peça inacabada

terça-feira, 8 de setembro de 2020

NO DIA QUE EU FOR EMBORA

No dia que eu for embora,
me deixe
eu ir na maior calma,
senhora
com minha alma pe(s)cada
peixe.

Só quero que nessa hora
Me feche
com a palma calma
de outrora
por favor nunca
se queixe

No dia que eu for, senhora
me ame
om teu jeito me chame,
agora
que eu te conheci, madame.

No dia de voltar, em paz
me veja
como o bem que você mais
deseja .

No dia...

O INCRIADO


Ele criou tudo e todos. 
Deu(-lhe)s o dom de transformar o que fora criado 
e aprimorando tudo 
atingir o ápice da perfeição: deusificar-se. 

As criaturas que somos 
tangenciamos a busca do perfeito e perdemos 
de vista nossa rota. 
Andamos às cegas como tontos e tolos. 

Nossa mente trabalhada 
improvisa saídas que nos projetam para o externo 
em busca das raízes 
que nos unem ao que chamamos de eterno. 

Mas somos tão somente 
animais, enjaulados em nosso corpos animados 
até o dia em que 
regressaremos ao Criador, que é o incriado. 

HAI KAIS NONATIANOS


Ela era bailarina
desde os tempos
de menina

Outra era escritora
ao perder o amor
de outrora

E como uma costureira
outra vive
a vida inteira.

Uma se fez penitente
ao se descobrir
mais crente.

Uma era cartomante
ao ler a mão
de um passante.

E um se fez presidente
nessa arte
de quem mente.

Um que se fez colibri
pra voar
além daqui

E os hai-kais que aqui eu fiz
foi pra me
sentir feliz.

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

EGO


O personalismo,
esse caruncho
que corrói a alma,
domina o ser,
que só se acalma
quando expõe
sua narcísica figura

É algo estranho
que desnuda
o interior que somos
como um fruto
que se corta em gomos
vai consumindo
o eu da criatura

Quem se promove
buscando apenas
revelar a imagem
Pode não dar conta
De que sua mensagem
Se confunde
Por mais que se observe

Lembrava o mestre
Que a maior criatura
fosse menor, não subalterna
E aquele com poder
Fosse pra quem governa
Um servidor melhor
para quem o serve.

terça-feira, 1 de setembro de 2020

A MÁQUINA DE LAVAR PECADOS


a máquina de lavar
Nonato Albuquerque

Em frente à maquina de lavar, 
dispo-me de meus preconceitos; 
A camisa de força da ignorância 
e as calças apertadas do egoísmo. 

As vestes rotas do passado, 
as lanço num canto da sala. 
As meias idéias que eu calcei, 
descalço-me de todos os erros. 

Em frente à máquina de lavar 
Retiro minha armadura e ponho 
Fora todos os meus desenganos. 

E só assim, afinal de contas, 
É que eu entro na máquina 
E lavo todos os meus pecados.

CARTA AO NAVEGANTE QUE FICOU DE SER

Cartas Psíquicas
carta ao navegante que ficou de ser
A primeira vez que ouvistes falar do Bem, ainda provavelmente nos dias de tua infância, acolhestes com serenidade o sentido maior dessa virtude. É que tua alma ainda não tocada pelas ideias mundanas, não profanada pelos vícios e inquietações de posses, navegava no mar sob a bandeira da tranqüilidade. Para isso, conduziram-te mãos desveladas de teus pais, interessados única e exclusivamente em conduzir-te a seguro porto.
A segunda vez que cruzastes com o Bem, lembrar-te-ás das lições que teus mestres portaram em salas de aula. Deles, a sagrada voz da virtude te convidou a ser íntimo parceiro. Muitas vezes, abandonastes a rota segura e o compasso das cartas náuticas para admoestar-se num mar de aventuras, escapelado por muitas vagas. Como é ditame da lei, os efeitos reclamaram a objetividade da causa. Mesmo assim, a voz da Razão realimentou tua alma e conduziu o barco de tua existência por rotas e caminhos mais confiáveis.
Lembrar-te-ás: muitas vezes outras, o sagrado Bem acercou-se de ti. Diante do canto de sereias, interpretastes de modo diferente o convite a esse rumo. E sofrestes perdas. O tempo perdido, no entanto, lecionou-te a necessidade de resgate. E eis que, de volta ao leme, suplantastes desafios e conseqüências.
O tempo passou e agora, ao transpor a linha do horizonte da vida de volta à casa, já enfunando as velas para o atraque no pier, tens tu a consciência de que só o Bem é a carta que rege o destino das naus em expedição terrena. E que é preciso chegar à terra firme para anunciar a todos os que estão às margens da matéria que o mar da Vida esconde mistérios que a voz da razão ainda não clarifica.
Repousa na paz que o destino do teu barco ainda tem viagens muitas a cumprir. E nessas rotas de idas e vindas, o exemplo do marujo que sabe conduzir o barco com segurança ainda que sob tormenta, revela o bom senso de quem se ateve no leme do Bem, cartografado pelas lições maiores dos grandes navegantes do passado.
Nonato Albuquerque

LIGADO AO ETERNO

Nos corredores do hospital, os doentes se acotovelam.
São (im)pacientes.
Um gemido entrecorta o ar e de uma enfermaria
na ala mais restrita,
deparo-me com o corpo do que sobrou de um jovem soropostivo.
Ele só tem pele e ossos.
Os olhos quase a saltarem das órbitas.
As mãos trêmulas e o corpo enrigelado,
como se já tivesse morrido.

José Airton
é o nome que está escrito na cabeceira da cama.
Mas quem é ele? quem foi ele? por que está ali?
- tudo isso, cede lugar a um outro tipo de indagação
ainda mais contundente:
- para onde irá ele, depois que vagar aquela enfermaria?
Como chegará ele ao seu destino? Qual o seu destino?
Com quem irá se encontrar?
O que vai guardar de memória?
O que ele dirá sobre a mudança?
Suportará isso tudo?

As perguntas se multiplicam
e as respostas são reticências...
O dedo - afora toda a alma - desse jovem,
fico a pensar,
está mais próximo da ligação divina
ou qualquer que seja o nome
que lhe queiram dar.

dedicado ao paciente da enfermaria 110
do Hospital São José/Fortaleza
(que já se foi)
posted by NONATO ALBUQUERQUE

DIA NOVO

Um dia novo se formata no silêncio desta noite densa
onde uma alcateia de lobos se devoram entre si.
Homens-feras, narcotizados pelo impulso do Ter
se anonimam, perdendo os elos de ligação com a Natureza
esquecidos que o SER é a destinação de cada indivíduo na Terra.
Se a ventania da violência ruge lá fora, calma! Tudo passa.
Vele pelos seus. Reze pelos outros. Ligue seu coração aos corações
de amados luminares que da dimensão da Luz,
aguardam a resposta do Bem de cada um de nós.
O que estamos fazendo para transformar não o mundo em si,
mas a cada um?
Quando individualmente mudarmos a nossa postura de ser,
chegaremos ao ápice dos valores maiores da Vida.
E a Terra será um paraíso. E não apenas uma escola de resgates.

HUMOR POÉTICO

Três três passarás
Nonato Albuquerque
Era uma vez um colibri que,
pequeno e frágil como se deve a todo colibri,
passou rasante no roseiral da vizinhança
sem tempo para sugar o néctar de nenhuma rosa.
Entristecida, uma delas se curvou na haste
e soluçou uma gota de orvalho
que uma esperança no galho mais embaixo,
quase se afogou.
O verde inseto abanou suas asas molhadas,
e enquanto se enxugava com suas pontiaguadas antenas
limitou-se a um desabafo:
ah! colibri sem vergonha,
"me mijou!"

DESPRENDIMENTO


Andei por todos os quadrantes
em busca de mim mesmo.
Não me vi entre os sábios,
nem me encontrei entre os tolos.

Persegui-me no caminho do sol
e nem na noite, visualizei-me.
Tenho medo de não estar
na cama, onde sempre durmo.

Amanhã, pretendo mudar isso.
Vou me ajustar nessa roupa-corpo
e andar um pouco apressado

Falar menos de mim e vê se acho
alguma imagem do que fui e sou
Para me ver possível no futuro.

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

AS FLORES QUE BEIJAM O BEIJA-FLOR


Um beija flor pequenino,
Embora todos o sejam,
Mas por ser inda menino
Confunde as flores que almeja

E sai beijando um vestido
Pelo qual se apaixona
e, sem temor, dá sentido
ao cortejar sua dona.

Quem pensou fosse loucura
O que o beija flor deseja
Não viu que a floricultura
Do vestido é quem o beija.


AS INVISÍVEIS MÃOS DO TEMPO


AS INVISÍVEIS MÃOS DO TEMPO
Onde antes brincavam, hoje só descansam.
Por onde antes trabalharam em sacrifício
edificando a Vida, hoje, silentes, em repouso
acrescentam textura nova às velhas marcas.
Onde antes primavera, o outono delineia-se.
Invernos e verões passaram e elas acenaram
A tantas outras com quem cruzaram caminhos,
E despediram-se com promessas de voltar.
Falo das mãos, essas ferramentas indispensáveis
que amanhecem desde o despertar da existência
E atravessam rios de tempo, ruas de conversas,
até chegarem ao ocaso de todas essas andanças
Mudando a tez, enrugando-se como folhas de papel
Que mãos invisíveis amarfaranham através dos anos.
de Nonato Albuquerque

BEIJAR DESENHO DE FLORES



Um beija flor, pequenino,
Embora todos o sejam,
mas esse por ser menino
quando suas asas adejam
foi-se de encontro ao destino
que outros beijas almejam.
Mas esse era de um feminino
Robe, onde mil rosas vicejam
E no desenho, o traquino
Beija e as flores se arejam.
Vendo essa cena, eu atino
que o que os seres cortejam
Nem sempre é o que obstino
Enquanto muitos invejam
Ter um amor repentino
Que as suas flores protejam
Me lembra que é bizantino
Amar o que os sonhos ensejam.

CEGO, SURDO E MUDO


Eu já fui menino, hoje sou velho.
Passei por muitas mudanças.
Quando hoje me olho no espelho
Preservo minhas lembranças

Eu já fui só, hoje eu parelho
com a sorte todas minhas danças  
e se lhe serve o conselho
aprendi com minhas lambanças

eu já fui mulher, em outras vidas
para que nessa eu me ocupasse
de ser homem, conhecendo tudo

já fui falastrão e dessas mui lidas
que eu tive, a que me deu mais classe
foi quando fui cego, surdo e mudo.   

sábado, 22 de agosto de 2020

O EBAMIM

Sou filho de carpinteiro 
neto de Ana e Joaquim .
Aquele que vem a mim 
será também companheiro 

De minha mãe, sou herdeiro 
do que há de mais belo em mim 
do meu pai, sou o ebamim 
seu grande amor verdadeiro 

Quem acha que eu descrevo 
O filho de Deus, Jesus 
nesses meus versos pueris 

acertou, pois a ele eu devo 
sua harmonia e sua luz 
fontes do amor mais feliz.

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

O MAR DA QUINTAESSÊNCIA


Meu coração é igual fonte sagrada
De onde jorra um rio avermelhado
Nas minhas veias. ele se faz estrada
se movimenta com seu tônus sagrado

Quando minha alma se vê entrosada
O rio flui com meu corpo integrado 
Mas ao sentir-se só e amargurada 
faz o rio virar pedra, infartado. 

Porém se pusa amor, essa corrente
Jorra de paz, meu corpo inteiro
E o rio faz seu curso sem sofrência

Por isso, digo a você e a toda gente
busquem ter o bem mais verdadeiro  
Para alcançar o mar da quintessência.

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Fé positiva (reunião live)


Fé positiva (reunião live)


A grandeza da alma não se mede 
pela trena que medís a criatura; 
mas na extensão do bem a quem se pede 
ser benção de luz e de ventura 

Dulce, Divaldo, Chico isso não impede 
que se liste Anália, Mãezinha na postura 
da positiva fé, de onde procede 
do ensino do Cristo, sua cultura. 

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Nada é mais fora de moda que um soneto

Nada é mais fora de moda que um soneto.
Eu, de teimoso, insisto sempre em tê-lo.
É que de tudo o que na vida eu prometo
acabo por descumprir a esse meu apelo.

Um soneto é algo antiquado, como amuleto
do ontem que o hoje quer prescrevê-lo,
Mas convive em mim como se fosse um dueto
que imagino apenas só eu consiga lê-lo.

Nessa disputa entre eu e não sei quantos
vou ganhando tempo e sonetos carregando
até que um dia a modernidade me reclame.

Eu sou de eras outras onde poemas e cantos
eram arte de uma arte que irá durar até quando
houver alguém que a faça e alguém que a ame.

®nonato albuquerque

domingo, 9 de agosto de 2020

A VOLTA DO PAI QUE HOJE É SEU FILHO

Vivia interessado em saber onde estaria o pai
que se adiantara na viagem, ao fim da vida.
Sangrava o coração árabe vivente em Dubai
Pela perda da figura familiar mais sentida.

Quem sofre a ruptura de uma afeição querida
No grupo familiar, que é a voz que sobressai,
fica como num ergástulo, só e sem guarida
chegando a descrer de tudo, até de El Shaddai

Ah! dias de alegria que se viveu outrora
Para onde foram as promessas do profeta
De que haveria um tempo bom, abençoado

É que a resposta a esse homem agora
Se faz presente, e eu falo como um poeta,

No filho que é seu pai, que está hoje ao seu lado 

QUEM AMA JESUS, QUEM AMA DEUS


O fiel penitente
guarda o Cristo numa imagem banhada em ouro
Como se aquilo fosse o seu maior tesouro,
Pobre esse crente!

Outro religioso
Adora a Deus sob silícios e sofrimentos
Esquecido de que nesses momentos
Não se faz virtuoso

Quem ama Cristo
O faz por onde a prática da caridade
Se acentue como primado de verdade
De ser só isto.

Quem ama Deus
Ama no próximo a verdade absoluta
De que ama em meio a toda essa luta
A si e aos seus.


quarta-feira, 5 de agosto de 2020

LIBERTE-SE DO QUE VOCÊ NÃO É

Liberte-se do que não é você. 
Aprenda a conviver com os enfeites, mas não desgrude a atenção ao que você é. 

O ouro e a prata de seus adereços; os títulos honoríficos que a alguns tanto soma; as riquezas materiais que sufocam as do espírito... tudo passa! 

Tudo que é matéria tem vida curta, fugaz... 
Eterno é o ser que você é. 

Não é preciso que se desfaça de tudo, mas necessário é impor-se diante do que é efêmero. 
Não se prenda às máscaras que alguns elegem como a ser íntimo do orgulho e da impiedade. 

Não finja; seja você onde quer que esteja. 
Não aja por conveniências para atender a certos requisitos de mera ocasião.  
Não procrastine o tempo de ser para valorizar o ter.
Não esqueça que o tempo é senhor da razão. Tudo nele é passageiro Tudo é transitório no mundo das coisas.  Eterno só é o ser que você é. 

Quando for hora de desembarcar desse veículo corpo, você notará, o que o véu de Isis lhe oculta, mas que a consciência racional lhe permite entender que tudo é empréstimo: até o corpo que você carrega, é algo temporário. 
Haverá de se despir/despedir-se dele e ser grato à existência que ele te permitiu ter. 

Por isso, agradeça tudo o que tem e tudo que lhe chegar às mãos nessa viagem que, por sinal, tem tempo de chegada e de partida. Tem começo e fim... 

 Mas não esqueça nunca: eterno só é o que você é: ânima, ser. 


 (nonato albuquerque escreveu)

domingo, 2 de agosto de 2020

PAVANA DE UM AMOR SENTIDO

se ao desencanto meu, tu te ausentares 
E por encanto a outro, me traíres, 
seja do amor-saudade os meus pesares; 
seja o pesar, tua dor quando partires 

se por acaso de outro te acercares.
caso com meus pesares, se desistires.
Não sendo a flor que perfuma meus ares 
nunca serás jardim em meus porvires. 

se por respeito, pensas estar comigo 
ou por piedade desejares, eu não quero
sai de minha vida, é o que mais imploro 

Pois onde há amor, há de haver amigo
que se propõe a ser sempre sincero  
se assim não o for, do teu amor deploro. 

quarta-feira, 29 de julho de 2020

Sol no interior das almas

eu vejo o dia botar cor na manhã raiada;
derramar ouro por entre nuvens e calçadas;
com o vento a sacudir os cabelos das árvores.
É o sábado pedindo para se fazer presença.
Em meio à expectativa de nova caminhada.
Corre um burburinho nas ruas de gente miúda
zoando com outras, entre risos e brincadeiras,
que só os infantes conseguem ambientá-las.
Ao lado delas, amadurecidos de problemas,
Velhos se dirigem lentos à praça do Ferreira,
onde desmiolam conversas de outros tempos,
Porque o hoje, para eles, está aos pés do abismo.
Nos ônibus lotados vai gente pro trabalho,
ensimesmada em seus smarts e celulares.
Um pregador prega a dor de um Cristo imolado
E promete os céus a quem o servir na Terra.
O dia nasceu. A bola de ouro corre pelos céus
com sinal de vida e luz por toda essa cidade.
Eu aqui, com meus botões do notebook,
certifico que, também, há sol no interior das almas.

Apostas atraem esperança

APOSTAS ATRAEM ESPERANÇA
Nonato Albuquerque 29 julho 2014
É fato comum, entre os que fazem jogos de azar ,
apostarem na sorte que a outros ela bafeja;
e com essa ditosa glória de milionário, sonhar.
em ganhar o prêmio, qualquer valor que seja
Na verdade, as loterias dão ao homem um ar
de grandeza; de serem tudo o que se almeja
Afinal, até a hora do sorteio, vive-se a planejar
o sonho de ser no mundo, aquilo que se deseja
quem joga, aposta mesmo é na força venturosa
que é motivadora em nós dos grandes ideais
e que na Terra a todo ser humano alcança
Até o dia do sorteio, vive-se uma vida cor de rosa,
fazendo planos que o jogo alimenta mais,
com o bem que todos chamamos esperança.

segunda-feira, 20 de julho de 2020

RETRATO FALADO DE UM HOMEM CHAMADO JESUS

 Por Nonato Albuquerque em ARTIGO

 02 de Abril de 2015

Um excluído, cidadão de uns 33 anos, é preso, torturado e executado de forma arbitrária. Seu julgamento durou menos de 24 horas, entre a prisão e a morte, assistida por dezenas de pessoas. O crime pelo qual foi condenado não ficou bem definido. Há suspeitas de que ele vivia à margem da lei. Que pregou uma nova ordem social, na qual as pessoas deveriam viver no Bem, na Esperança e na Caridade.
Ousado, ele chegou a incitar as multidões a abandonarem os vícios e as maldades do ódio e da violência. Seus algozes o acusaram de andar em bando, com uma espécie de gangue que chegara a danificar um templo religioso, expulsando os comerciantes que, segundo ele, assaltavam o consumidor no peso e no no preço.
Preso pelas milícias oficiais, depois de várias tentativas frustradas, esse homem quase foi linchado pela multidão, a qual ele assistiu durante três sucessivos anos, ensinando regras de comportamento ético e de uma vida saudável para o corpo e para o espírito.
Foi a ajuda de um integrante de seu grupo, por meio do expediente da delação, que deu à polícia a chance de localizá-lo. Sua prisão não obedeceu a nenhum critério da lei ou respeito aos direitos humanos.
Sua identidade é bastante conhecida, mas há em torno dele um grande mistério. Partidários e até inimigos são unânimes em garantir que ele sempre se portou em favor dos pobres, doentes, assassinos, prostitutas e miseráveis, tendo anunciado a Justiça em defesa dos oprimidos.
Esse homem, sem residência fixa e cujo destino todos ignoravam, costumava atrair multidões às praças e aos logradouros onde pregava lições que jamais foram ouvidas da boca de alguém: o dever de amar os inimigos; esquecer pai e mãe para segui-lo; a promessa de um lugar no paraíso para os pobres de espírito; a igualdade dos povos e a sua filiação divina; a crença de que todos somos deuses, além de buscar fazer pelo outro aquilo que desejaríamos que nos fizessem.
Preso, torturado e executado em via pública, num local denominado Morro da Caveira, esse homem mereceu o registro maior de todas as violências.
Seu nome: Jesus.
Seu crime: ter amado a humanidade.
Texto de Nonato Albuquerque

sábado, 18 de julho de 2020

CAUSA E EFEITO

Sêo Neco de nhá Vicência,
nascido no pé de serra,
vei limitado pra guerra
dessa atual existência

Vei sem as mãos, o coitado
Pru mode atender pedido
de um erro adormecido
que ficou lá no passado.

Sinhô raivoso, pachola
Se apegou só ao dinheiro
e morreu na maió misera

Hoje, vive de esmola
Pra dar conta do herdeiro
Que manietou noutra era.

(inspirado em Cornélio Pires)

sexta-feira, 17 de julho de 2020

NADA SE PERDE, TUDO SE TRANSFORMA


Fujão na mata, o escravo então liberto
Sente a necessidade de ausentar-se
e de coragem poder assim armar-se
para mostrar a outros, o rumo certo

vaga sem destino, por caminho incerto
medo de no encalço, vir a deparar-se
com capitão do mato para entregar-se
e voltar à senzala, fosse ele descoberto

um estampido se ouve, vindo em sua banda
o escravo cai e com enorme estranheza
se vê fora do corpo em uma outra forma.

Ao seu redor irmãos da antiga Luanda
A provarem a lei pétrea de toda Natureza
De que nada se perde, tudo se transforma.

OUTRO PÓDIO



Éramos bichos em figura de gente
Trancafiados em porões de navio
Vendidos por nada, vidas por um fio
Atados a grilhões de uma corrente

Vínhamos de longe, outro continente
A chorar nossas mágoas, no desvario
De um desencontro mais sombrio
Apartando nossa raça, nossa semente

Como animais fomos assim tratados
Por senhores de baraço e cutelo
A impor sobre nós sua raiva e ódio.

O tempo mudou e hoje transportados
A outra plagas, vemos que o flagelo
Da escravidão repousa em outro pódio.

sábado, 11 de julho de 2020

O ESPETACULAR CIRCO DA VIDA

A vida é um circo onde o palhaço sempre paga mico onde o trapezista vive em corda bamba pra se mostrar artista onde a bailarina tem que sempre ter corpo de menina que o engolidor de faca no fim da função não saia de maca e que todo mágico não termine a cena em um número trágico que no picadeiro o domador de fera seja seu guerreiro que o malabarista faça em seu ofício nada tão simplista e num bom vernáculo que o circo da vida seja um espetáculo e nessa conversa o circo parece a vida e vice-versa

quarta-feira, 1 de julho de 2020

A lua na poça d'água

eu sei que, à noite, todos os gatos são pardos;
mas o que mais me inspira é ser da noite, a lua
que traça, ininterrupta e sempre, a mesma rota
como se tudo nos céus fosse de um mesmo hábito.

também entendo bem que a noite é uma criança,
mas nada disso me faz perder meu sono e sonhos.
eu vivo é da ilusão de não ser, de crer que não sou,
além do que eu sinto e do que eu desejo mais ter.

por isso, eu abro sempre a janela do meu computador
e escancaro bem o que o mundo mais parece ter:
rostos, marcas, palavras, imagens, sinais... fotografias.

eu sou parte desse tempo em que todos se inscrevem
para eterna idade, ainda que ninguém busque ver lá fora
o brilho da lua refletido na poça dágua sobre a rua.

NONATO ALBUQUERQUE