PAISAGEM
nonato albuquerque
Quando através do sono nos libertamos temporariamente do escafandro corporal, volitamos por entre a dimensão do eu mais puro e visualizamos cenas que, geralmente, só os sonhos conseguem externar. É do substrato desses sonhos - e da criação poética - que se constitui este diário, revelando a incrível magia da dimensão da espiritualidade.
PAISAGEM
nonato albuquerque
Eu já andei feito um lagarto em
outras eras.
Nadei como peixe, embora preso a um
aquário.
Fui símio louco. Selvagem imitei as
feras
que cruzei em tempos do período
terciário
Corri matos, matas. Me embebedei de heras.
Delas destilei o veneno do meu
serpentário.
até criar asas e volitar por épocas mais
austeras
onde de lagarta borboleteei em novo
vestuário.
Hoje da fera que fui, herdei comigo
um traço
que só revelo quando minha alma se desarvora
e põe abaixo a legião de bichos que inda
eu tanjo.
Basta alguém me olhar torto e, logo, ergo o braço
revelando a besta fera que inda comigo mora
e que ensaia, há tempos, esperançar ser anjo.
O RIO QUE DESÁGUA NUM MAR MAIS BONITO
Eu sou do lado de lá; oposto do de cá.
E num invejo a quem aí vivo se encontra.
Vivo como alma que se diz já pronta
Pra hora de outra vez reencarnar.
Aqui do lado de cá, a gente afronta
a estória de que quem morre será
um fantasma que só temor apronta
a quem na Terra não veio inda pra cá.
Pois nesse vai e vem, dos dois planos
a vida prossegue, a gente não morre
e é nisso que hoje eu mais acredito.
Quem pensa o oposto, verá em alguns anos
Que a vida é um rio que pra cá escorre
(nonato albuquerque)
Para ganhar asas de anjo
preciso é dispensar todo cuidado
aos ditos pequenos infantes.
São eles peças de luz
que nos empresta o divino
para sagrar em nós os bons instantes.
Para ganhar as asas é preciso
zelar pelos pequenos seres
com sabedoria e consciência.
Fazer com que sempre, sempre
eles projetem aos olhos do mundo,
a pureza do céu em sua inocência.
Para vencer os ímpetos da dor
abençoar as feras e as crianças
que se dedicam a essa harmonia.
Por elas vencer o mal que ainda há
e torcer para que o mundo
os transforme em bênçãos de alegria.
Quem na vida toda só ouviu o sacerdote
impor aos fiéis a temer mais o inferno;
cresceu sem saber que o céu é o mote
que se deve ao ensino mais fraterno.
Todo pecado, seja ele interno ou externo,
Dizia-se que ao pecador caberia o dote
da morte, se destinando ao fogo eterno
Embora seja o céu o caminho que se adote.
Se há religião na Terra que hoje ainda investe
em fomentar o medo com o seu proselitismo,
corre o risco de ser levada na total descrença
Pois entre a fé cega e a raciocinada, há o teste
do qual vencerá a que coloca o cristianismo
no altar sagrado do bem, razão de toda crença.
Ando à procura de mim mesmo.
Não é difícil descrever-me.
Tenho a altura do que sou,
Nem magro de ideias,
nem gordo de defeitos.
Meus olhos focam o futuro mais longíquo.
Meus ouvidos, as vozes sábias
dos grandes mestres do passado.
O desenho do meu rosto
é igual ao que revela o espelho;
embora, intimamente,
minha alma tenha as dimensões do eterno.
Quem me conhece
diz que eu rescendo o perfume dos anjos
por conta das coisas que falo
e que entôo o cântico das estrêlas.
Ando à procura de mim e peço,
a quem souber do paradeiro,
pode achegar-se sem medo,
Eu não agrido, não mordo, garanto.
Sou como um cão de guarda
que anseia apenas o encontro
com a estima de seu dono.
Não manda em mim
Quem me sufoca o respiro
Nem compromete
A liberdade de minha voz
Não manda em mim
Quem governa meu centro
E me impede
De andar livre por onde vou
Eu sou livre de pai e mãe
Se de uma desliguei umbigo
Ao outro guardo só respeito
Não manda em mim
Quem me preside e age
como se da Idade Média fosse.
Os que assim agem, herdaram
O LADO B DA VIDA
Ao chegar do mundo. onde habitei
por décadas em meio a tantas lidas,
na alfândega do céu, eu me deparei
Com a lista de minhas muitas vidas
Juro que nunca li, nem nunca andei
em doutrinas que dessem guaridas
a esse conhecimento que hoje eu sei
a gente retoma sempre nas partidas.
Há tanta pressa em viver o presente
Que a gente esquece de tirar proveito
Dos ensinos dos sábios do passado.
E é só quando a vida se faz ausente
Que se descobre, agora já sem jeito,
ser a morte o lado B a ser tocado.
Composto às 19h30min de 12,3,21
A pandemia
que escancara a morte
como se da
vida tivesse seu domínio
passará, não
por um golpe de sorte
desde que
mude o homem o ar abissínio
Será uma batalha
de gigante porte
a mudar na alma
humana o tirocínio
do bem, que em
nós é o passaporte
para a
evolução por meio do raciocínio.
Não somos
apenas animais tutelados
por um
pastor que a tudo nos controla
e nos restringe
a um saber casuístico
Se ainda não
temos maiores cuidados
é que valores apreendidos na escola
são teóricos, como os do evangelho crístico
Diz a essa alma que se banha
que a
limpeza mais desejada
É aquela que
se entranha
No íntimo de
sua pousada
A tarefa é boa,
mas estranha
é que a sua
morada
interior ainda
abocanha
sujeira de
uma vida passada
no país do
sol nascente
ela foi
gueixa esclarecida
mas de
escravos foi sua feitora
voltou na
vida presente
a pagar o
karma dessa vida
na pele de simples professora.
Hoje, quando o sol for embora
eu não lamentarei sua ausência
porque sei que em outra aurora
Ele virá e da vida tomarei ciência
Hoje quando findar a paciência
Não me rebelarei como outrora
Porque sei que a minha essência
É filha do altíssimo a quem adora
Se por um motivo qualquer venha
Chorar, aliviarei o peso da amargura
Louvando ao Senhor, eterno, divino.
Cantarei louvores e embora tenha
Que alterar toda a minha estrutura
Serei eu dono de mim, do meu destino
às vezes, eu me pergunto se o que escrevo
nas horas de meditativas preces,
são originadas de mim mesmo
ou fruto de outras abençoadas messes.
é que eu, atento a tudo o que observo,
fico na dúvida se não acontece
de serem os versos que eu aqui pesco
de alguma fonte que me abastece.
eu preciso de respostas a esses tormentos
para que eu saiba o que é meu
e o que sopram outros ventos
seja da terra ou oxalá do céu
...
E eu me
achava poeta, antes de ver o que gera
uma sociedade
inteiramente nova, diferente.
Fecundamente
linda, bela. De coisas e de gente
que parecem
flutuar no encanto dessa esfera.
E eu que me fiz
cético, me achando inteligente
A achar que crença
era coisa de quem espera
influência sobre
outra pessoa para fazê-la crente
e depois
dominá-la sob os efeitos de quimera.
Foi preciso pegar
um barco pelo rio das mortes
E ao lado de
Caronte, singrar entre os tormentos
Da perda
física, a chance de achar o novo porto.
Ao chegar vi
que não se exigem os passaportes
Da fama, nem
da sabedoria, ou de outros tentos
Que me façam
crer, de que aqui não estou morto.
Eu, príncipe, que outrora assim me vi
retorno ao lar de onde tudo se origina
E com a clareza cristalina, descobri
Que tudo o que aí começa, aí termina.
A vida maior difere de tudo, imagina
a vã filosofia que tantas vezes li.
É feita do que é simples e determina
Vencer o orgulho que anterior vivi.
Sábio não é quem diante da verdade,
que fere suas idiossincrasias vãs,
não reconheça e dê mão à palmatória
Permitam-me dizer que a eternidade
é só o fim da ponte onde as manhãs
acordam o dia novo da outra história.
(inspirada en Arthur Eduardo Benevides)
31.05.2020
Eu, analista de mim mesmo, acordo
de um sono profundo que se desabara
entre a dor no peito e a visão mais rara
de um mundo novo que só aqui concordo.
Eu nunca fui de rezas. E se me recordo
a Ciência era minha igreja, onde aplicara
todo o conhecimento que me devotara
ao ensino de Freud que ainda aqui ancoro.
Não me exponha à vista dos meus pares
Como um morto que virou um santo
de terreiro, embora guarde eu respeito
Sou alma vilã, poética, que viveu em bares
sorvendo do néctar da poesia, o encanto
E achando a morte o fim, que já não aceito.
O coração
é chão sagrado
onde palmilha
o rastro dos teus rastros
Consolo
ao amargurado
pranto que trilha
dos infinitos astros
a minha voz
alma sedenta
a buscar na luz
de teus ensinamentos
o amor maior
que alimenta
o conhecer Jesus
em todos os momentos
Sou quem busco
nesse universo
onde prescruto
as bátegas de aprendiz,
através do verso
ainda bruto,
o ouro que me fará feliz.
que roupa veste tu, nesta jornada presente?
Corpo sadio, sem problemas algum? Que bom!
Torna-te grato à engenharia sideral
pela oportuna chance de transitar sem sequelas de vidas outras,
nas quais as marcas do passado jungiram-se às novas vestes.
Há milhares de seres que, na vida atual,
detém registros cármicos alusivos à sua postura moral e
comportamental.
Evidente que não se trata de castigos dos céus
- nós somos os construtores do nosso destino -,
mas apenas a paga da Justiça que se opera de forma eficaz
em nosssos arquivos akáshicos. Esses deficientes, porém,
operam em admirável superação.
Alguns chegam a altear-se mais do que os ditos sãos.
Na verdade, somos resultados de pretéritas existências,
costurando no presente as futuras vestes
que irão dar visibilidade a uma parte de nossa gênese anímica.
POÉTICA. Os dois cães que alimento
de Nonato Albuquerque (31 de janeiro de 2017)
Eu tenho um rebanho
De almas que pastoro
Nas cercanias do céu
Com chuvas eu banho
Os meus dias de choro
Cavalgando esse tropel
Conduzo-as todas à luz
Embora sombras ainda
me requisitem o apego
É que eu ignoro a cruz
Que me liberta e finda
O que é desassossego
Quando tiver o vaqueiro
De ser também manada
Deus, que me pastoreie
Vou, como todo janeiro,
começar outra jornada
E que outra vida semeie.
Sou como um carvalho
Que não se desvanece
Diante da forte ventania
Madrugarei no orvalho
como a noite que tece
a sagrada virtude do dia
Conta-se que, certo
dia, o Nazareno
em sua longa caminhada
pela Terra
deparou-se com um jovem
gesareno
que por loucura a
todo mundo aterra.
Ao ver a figura de um
ser extraterreno,
o louco se agita por
saber que encerra
Ali o domínio do mal,
que é seu veneno
E que por anos a
fios, vivera ele em guerra.
“Que tens comigo, ó filho do altíssimo
Eu te suplico, rogo, não
me atormentes?"
ao ouvir a ordem imperativa de Jesus:
“Espírito imundo, sai
desse humildíssimo
corpo, quebro-te agora todas as correntes”
E as sombras do obsedado se fizeram luz.