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sábado, 21 de novembro de 2020

O FEITO

 

Na lápide dos fantasmagóricos sonhos

que eu tive, atinei uma inscrição insana;

ajuizando fossem meus dias medonhos

quando a morte me flagrasse na aduana

 

Teria inscrito: “estou despido”. E à paisana

adentrei o mundo de ares tão bisonhos

onde nada lembra a cultura greco-romana

De ser o astral, o lugar de anjos e demônios

 

Ao contrário disso, achei floridos jardins.  

centros de convivência, áreas de repouso,

onde almas descansam da faina e da fadiga.

 

Se como dizem os meios justificam os fins

eu deva ter feito algo bom, lembrar não ouso,

Pra alma ocupar o lugar onde hoje se abriga.

PENA DE VIDA

Nonato Albuquerque 


Pena de morte, gritam nas ruas as vozes,

ante a avalanche da violência que salta 

aos olhos de quem vive o estupor da malta 

e se obriga a viver com a fúria dos algozes.


Por toda a parte, há lamentos atrozes; 

medo do crime que a todos sobressalta, 

já que o poder de vencê-lo estar em falta 

represado pela força de muitas fozes. 


No silêncio das igrejas mães desfiam rosários

pelos filhos que as facções silenciaram 

e passaram a viver no lado oposto da luz. 


Pena de vida a todos, advogam os emissários 

do alto, que dos humanos nunca se separam 

repetindo a lição do bem, do bom Jesus.

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

UM NOVO SAMARITANO

Eu sou do tempo em que o tempo nem era

Vivia-se uma era, mas sem tal conotação.

Vim das cavernas ao topo da extrastosfera

Quisera eu provar toda essa locomoção  


 Vivi o paleolítico, o neolítico e se me dera

a esfera da mente ter da memória, noção

Diria que passei fases feito homem fera

Em tempo longevo de outra encarnação.


Roubei, matei, esfolei vidas, morri tantas

Pelo guante tirano que eu mesmo herdei

Até cobrar em mim, a dívida atrasada


Vivendo e aprendendo eu soube quantas

vezes foi preciso ir de vagabundo a rei

A ser samaritano em minha nova estrada.


segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Melquer e o mistério do sagrado altíssimo


Grande é a bondade do Eterno e infinita a sua misericórdia.

Sobre isso, conta-se que no Oriente antigo, na acolhedora cidade das palmeiras em que se transformara Jericó, era acerba a disputa de ideias religiosas e angustiante se fazia a intolerância de seus contendores. Nela, o velho Melquer, aplicado às vendas de candeias no mercado, se portava como sábio entre os que alimentavam as querelas da terra e discutiam os mistérios indecifráveis do céu.

A última delas dizia respeito a exigência de orar, sempre voltado para a Meca, atendendo a um preceito muçulmano. Para isso, todo fiel seguidor devia usar uma bússola como guia ou observar a posição do sol no tapete, enquanto repousava sua fronte na pedra de karballah.

O velho Melquer destoava de todas essas dogmáticas exigências. Orava com o rosto levantado para o alto, batendo no peito e fechando os olhos ao mundo exterior. A quem o condenava dizendo que ele insultava os ofícios do sagrado, por não buscar a orientação da honrada Meca, respondia paciente:

- O Eterno vive no mais alto dos céus. Mas Ele é tão abundantemente misericordioso que se permite mergulhar no profundo poço dos nossos corações. Por isso, alimento a minha prece dirigindo meu pensamento ao distante mais distante, mas que misteriosamente convive nas cercanias mais próxima do meu eu. Porque o Inacessível e o Inalcançável tem o dom de operar  seu poderoso ofício nas nas cumeeiras mais altas do firmamento, mas Pai amante dos seus filhos, sempre elege para repouso o colo sagrado de nossa alma.  

terça-feira, 10 de novembro de 2020

A DOENÇA DO BEIJO

 


segunda-feira, 26 de outubro de 2020

PROMESSA DE VOLTAR DE NOVO

Eu vivo a pluralidade das cores

como a igualdade das horas

Com seus minutos e segundos

Tão intrinsecamente contados.

 

Eu somo as delícias de amores

De senhores e senhoras

Convivendo em seus mundos

O fascínio de serem apaixonados

 

Eu tenho o rumo das águas

Em busca de meus oceanos

Ainda que difíceis as vias

sejam para chegar a isto. 

 

Mas não guardo as mágoas

Se não alcançar esses planos

Vou outra vez noutros dias

Viver o que prometeu Cristo.

domingo, 25 de outubro de 2020

A FÉ QUE LIBERTA DO GRÃO, A ESPIGA

 Psicofônca Escrita

A FÉ QUE LIBERTA DO GRÃO, A ESPIGA
Nonato Albubuquerque


O elo da vida se estabelece por liames tão sagrados
que nem imagina o saber nosso ainda imperfeito.
Existimos no Amor e nele somos enquadrados
Da hora em que nascemos até alcançar o último leito.
Se durante a existência esquecemos esses dados,
atribuímos ao castigo divino, a dor em nosso peito;
mas é o Amor de Deus que nos quer ver consagrados
ao melhor da Vida por mais que haja em nós defeito.
Agradeçamos o Bem que nos acerca a vida amiga,
crentes de que a bondade eterna é permanente amarra;
nela jamais o Deus do Amor nos retirou as chances.
Se tendes a Fé que liberta do grão semeado, a espiga,
Poderás conquistar o Universo com toda a tua garra
E os páramos celestiais te permitirão que avances...

sábado, 24 de outubro de 2020

SOMOS A PAIXÃO INFINITA DE DEUS

Infinito é o cosmos. Nele, reinam o Senhor 

e sua graça. Em absoluta e eterna sintonia. 

As almas, fortalecidas com toda sua enegia 

Cantam em uníssonas vozes em seu louvor. 


Odes aos que chegam. Saudamos com amor 

Aos que se fartam de luz, de paz e de alegria. 

Branda é a alma, daquele que não se privou 

de ser luz plena para alcançar essa moradia. 


O Senhor dos céus é rei. Da terra somos o sal 

Os frutos que hoje somos dessa concretude 

Vão nos prover no futuro, nosso ideal perfeição. 


Se um dia fomos pedra, noutro planta, animal 

Crescemos no amor, em busca da angelitude 

Pois do Senhor do infinito, nós somos sua paixão.

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

DE QUE POETA SOU EU?


 A Europa nas linhas já mortas de minhas mãos.

Guardo rastros de passagem

que cigana alguma traduziu

mas que encantavam dançarinas como La Goulue.


A aurora sugava o véu da amargurada noite

por entre as doses de absinto

que eu bebia com a trupe de compagnons  

nas disputas de mulheres, eu cafetão me indispus.

 

Quem para beber comigo essa última taça

de recordações que me inundam

como as sirenes dos gendarmes

nos obrigando a visitar as ‘prisons republicaines’.

 

Qualquer dia, eu volto e circulo entre os vivos

para destilar meu veneno verbal

entre as choramingas do ontem

e o mentiroso riso de quem saúda, um renascido.  

terça-feira, 20 de outubro de 2020

NOVA SEMEADURA

A quem indaga aos arquétipos do passado 

explicações sucintas sobre a vil tragédia 

que leva um historiador francês ser degolado 

por um fanático com sintomas de acédia; 


tem-se a dizer que a vida é um estado 

onde se alternam o drama e a comédia. 

Fatos do hoje têm a ver com o passado 

como os atuais, terá cada um sua média


Quem se alimenta do bem, na bondade,

viverá o bem que a vida sempre destina. 

Colherá frutos que plantar com ventura 


Quem teve a vida marcada por maldade 

Ceifou vidas ao guante da guilhotina 

Paga a cota devida em nova semeadura


FONTE DA INSPIRAÇÃO

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

A JUSTIÇA QUE ALGUNS CHAMAM DESTINO


E quem conhece o Tião, filho de nhá Lia e Aquino 
pode ver como o destino apronta e reconta caso. 
Ele nasceu bem saudável e no maior desatino 
sofreu um mal repentino, que nada foi por acaso 

É que em vida outra, numa outra vida pôs prazo 
e arcou com todo esse atraso na vida que hoje atino 
tenha ligação com o fato que o levou já no ocaso 
da vida que não deu azo, vivida em chão argentino 

Para andar, Tião precisa da ajuda de sua família.
Vive hoje preso a mobília de uma cadeira de roda.
Mas o faz com tanto gosto esse adorável menino.

Como se a mente entendesse a que deve tal vigília 
Leu na Bíblia a voz do Monte e nada mais lhe incomoda 
por saber que é a Justiça que alguns chamam destino.

domingo, 27 de setembro de 2020

A INSPIRAÇÃO DO BELO

Significativas as relações entre cérebro e mãos, capazes de nutrirem efeitos inimagináveis. Como transpor do abstrato à matéria os sons da música mais fascinante para substanciar os ouvidos do mundo.

Notáveis, as possibilidades que todos detém de lapidarem a embrutecida crosta de um mármore ou de qualquer outro artefato e deles retirarmos imagens de inefáveis encantos. Que o digam o David de Michelangelo. As estátuas de Aleijadinho.

O mundo do belo circunscreve por indevassáveis caminhos do eu e que importa sobejamente aos serem que são despertos a esse patamar. 

O processo criativo do homem se faz desde os escaninhos mágicos do pensamento à laboriosa força do trabalho.

Deles emanam a opulência das cores que o artista as utilizam transpondo-as das paletas para o estilo que ele elege às telas de sua arte.

É dessa caverna misteriosa, que conhecemos como cérebro, que os pescadores de pérolas do abstrato subtraem desde os escritos mais simples e poéticos, às mirabolantes teses e teorias que, logicamente, vão acender as luzes do conhecimento das Ciências Humanas e Científicas.

É de onde pescamos as pérolas abundantes de sentimentos e as acondicionaos à prática sagrada das virtudes.

Bendizemos, por isso, as oportunas chances de progresso, a que se propugna o ser humano, no intuito de fortalecer o domínio do belo no mundo.

Da encantadora arte da música aos mágicos caminhos do seu canto, graças rendemos pela laboriosa colheita que a todos assistimos  por mais diversas que sejam as formas com as quais nos habilitamos na Terra. 

Significativas, repito, as associações que fazemos com todos os organismos que atém a alma humana, durante a formidável experiencia do viver.

Sagrados somos, quando temos a compreensão do encanto que tudo isso veste, para elencarmos no mundo as propriedades do saber que do belo extraímos.

Que se faz luz em torno das sombras que ainda perduram em nosso íntimo ser, querendo ignorar a nossa destinação no mundo. E que as forças supremas que detemos na alma, conciliem a compreensão formulada por um mestre ao dizer que “somos deuses” e contribuímos para a quintessenciar a melhoria do mundo e dos homens.

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

O SONHO VIROU REALIDADE

 


No tempo em que as coisas 

e os bichos falavam

A gente era melhor visto.

Com eles, aprendíamos lições 

que eles muito ensinavam

 

Mas veio o tempo das mudanças 

levando tudo embora

e nós perdemos a graça

De aprender com os bichos 

a moral que não há agora.

 

Quem para nos dizer as lições 

pelos irmãos Grim postada 

Em suas fábulas muitas?

Quem para entender a língua 

do meu gato que é cifrada

 

Nos tempos em que os homens 

falavam muita verdade 

Os bichos nos encantavam

Com as lições que eles diziam. |

Mas o sonho se fez realidade. 

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

EU, ESSA PEÇA INACABADA

9 de setembro de 2017 Fortaleza 
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eu, essa peça inacabada
Nonato Albuquerque
Eu teço o texto de meus textos
com paixão (e compaixão...)
São linhas filtradas no meu próprio sangue,
que as palavras têm essa propriedade incomum
de injetar líquido na solidez das conversas.
Arremato as pregas de cada frase com fino trato,
e vou alinhavando as sobras com meu jeito de ser:
Sou operário de quem pensa seja eu poeta,
mais vítima do poema que seu próprio executor
Ah! meus tempos de diálogos travados em outras eras
onde o corte deixado pela minha lâmina-língua
fazia calar realmente os que não sabiam falar.
Hoje, distante de tudo e de mim mesmo, rebusco na memória perdida do tempo, alguma lembrança que me dê certeza de ser eu, essa peça inacabada

terça-feira, 8 de setembro de 2020

NO DIA QUE EU FOR EMBORA

No dia que eu for embora,
me deixe
eu ir na maior calma,
senhora
com minha alma pe(s)cada
peixe.

Só quero que nessa hora
Me feche
com a palma calma
de outrora
por favor nunca
se queixe

No dia que eu for, senhora
me ame
om teu jeito me chame,
agora
que eu te conheci, madame.

No dia de voltar, em paz
me veja
como o bem que você mais
deseja .

No dia...

O INCRIADO


Ele criou tudo e todos. 
Deu(-lhe)s o dom de transformar o que fora criado 
e aprimorando tudo 
atingir o ápice da perfeição: deusificar-se. 

As criaturas que somos 
tangenciamos a busca do perfeito e perdemos 
de vista nossa rota. 
Andamos às cegas como tontos e tolos. 

Nossa mente trabalhada 
improvisa saídas que nos projetam para o externo 
em busca das raízes 
que nos unem ao que chamamos de eterno. 

Mas somos tão somente 
animais, enjaulados em nosso corpos animados 
até o dia em que 
regressaremos ao Criador, que é o incriado. 

HAI KAIS NONATIANOS


Ela era bailarina
desde os tempos
de menina

Outra era escritora
ao perder o amor
de outrora

E como uma costureira
outra vive
a vida inteira.

Uma se fez penitente
ao se descobrir
mais crente.

Uma era cartomante
ao ler a mão
de um passante.

E um se fez presidente
nessa arte
de quem mente.

Um que se fez colibri
pra voar
além daqui

E os hai-kais que aqui eu fiz
foi pra me
sentir feliz.

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

EGO


O personalismo,
esse caruncho
que corrói a alma,
domina o ser,
que só se acalma
quando expõe
sua narcísica figura

É algo estranho
que desnuda
o interior que somos
como um fruto
que se corta em gomos
vai consumindo
o eu da criatura

Quem se promove
buscando apenas
revelar a imagem
Pode não dar conta
De que sua mensagem
Se confunde
Por mais que se observe

Lembrava o mestre
Que a maior criatura
fosse menor, não subalterna
E aquele com poder
Fosse pra quem governa
Um servidor melhor
para quem o serve.

terça-feira, 1 de setembro de 2020

A MÁQUINA DE LAVAR PECADOS


a máquina de lavar
Nonato Albuquerque

Em frente à maquina de lavar, 
dispo-me de meus preconceitos; 
A camisa de força da ignorância 
e as calças apertadas do egoísmo. 

As vestes rotas do passado, 
as lanço num canto da sala. 
As meias idéias que eu calcei, 
descalço-me de todos os erros. 

Em frente à máquina de lavar 
Retiro minha armadura e ponho 
Fora todos os meus desenganos. 

E só assim, afinal de contas, 
É que eu entro na máquina 
E lavo todos os meus pecados.

CARTA AO NAVEGANTE QUE FICOU DE SER

Cartas Psíquicas
carta ao navegante que ficou de ser
A primeira vez que ouvistes falar do Bem, ainda provavelmente nos dias de tua infância, acolhestes com serenidade o sentido maior dessa virtude. É que tua alma ainda não tocada pelas ideias mundanas, não profanada pelos vícios e inquietações de posses, navegava no mar sob a bandeira da tranqüilidade. Para isso, conduziram-te mãos desveladas de teus pais, interessados única e exclusivamente em conduzir-te a seguro porto.
A segunda vez que cruzastes com o Bem, lembrar-te-ás das lições que teus mestres portaram em salas de aula. Deles, a sagrada voz da virtude te convidou a ser íntimo parceiro. Muitas vezes, abandonastes a rota segura e o compasso das cartas náuticas para admoestar-se num mar de aventuras, escapelado por muitas vagas. Como é ditame da lei, os efeitos reclamaram a objetividade da causa. Mesmo assim, a voz da Razão realimentou tua alma e conduziu o barco de tua existência por rotas e caminhos mais confiáveis.
Lembrar-te-ás: muitas vezes outras, o sagrado Bem acercou-se de ti. Diante do canto de sereias, interpretastes de modo diferente o convite a esse rumo. E sofrestes perdas. O tempo perdido, no entanto, lecionou-te a necessidade de resgate. E eis que, de volta ao leme, suplantastes desafios e conseqüências.
O tempo passou e agora, ao transpor a linha do horizonte da vida de volta à casa, já enfunando as velas para o atraque no pier, tens tu a consciência de que só o Bem é a carta que rege o destino das naus em expedição terrena. E que é preciso chegar à terra firme para anunciar a todos os que estão às margens da matéria que o mar da Vida esconde mistérios que a voz da razão ainda não clarifica.
Repousa na paz que o destino do teu barco ainda tem viagens muitas a cumprir. E nessas rotas de idas e vindas, o exemplo do marujo que sabe conduzir o barco com segurança ainda que sob tormenta, revela o bom senso de quem se ateve no leme do Bem, cartografado pelas lições maiores dos grandes navegantes do passado.
Nonato Albuquerque

LIGADO AO ETERNO

Nos corredores do hospital, os doentes se acotovelam.
São (im)pacientes.
Um gemido entrecorta o ar e de uma enfermaria
na ala mais restrita,
deparo-me com o corpo do que sobrou de um jovem soropostivo.
Ele só tem pele e ossos.
Os olhos quase a saltarem das órbitas.
As mãos trêmulas e o corpo enrigelado,
como se já tivesse morrido.

José Airton
é o nome que está escrito na cabeceira da cama.
Mas quem é ele? quem foi ele? por que está ali?
- tudo isso, cede lugar a um outro tipo de indagação
ainda mais contundente:
- para onde irá ele, depois que vagar aquela enfermaria?
Como chegará ele ao seu destino? Qual o seu destino?
Com quem irá se encontrar?
O que vai guardar de memória?
O que ele dirá sobre a mudança?
Suportará isso tudo?

As perguntas se multiplicam
e as respostas são reticências...
O dedo - afora toda a alma - desse jovem,
fico a pensar,
está mais próximo da ligação divina
ou qualquer que seja o nome
que lhe queiram dar.

dedicado ao paciente da enfermaria 110
do Hospital São José/Fortaleza
(que já se foi)
posted by NONATO ALBUQUERQUE

DIA NOVO

Um dia novo se formata no silêncio desta noite densa
onde uma alcateia de lobos se devoram entre si.
Homens-feras, narcotizados pelo impulso do Ter
se anonimam, perdendo os elos de ligação com a Natureza
esquecidos que o SER é a destinação de cada indivíduo na Terra.
Se a ventania da violência ruge lá fora, calma! Tudo passa.
Vele pelos seus. Reze pelos outros. Ligue seu coração aos corações
de amados luminares que da dimensão da Luz,
aguardam a resposta do Bem de cada um de nós.
O que estamos fazendo para transformar não o mundo em si,
mas a cada um?
Quando individualmente mudarmos a nossa postura de ser,
chegaremos ao ápice dos valores maiores da Vida.
E a Terra será um paraíso. E não apenas uma escola de resgates.

HUMOR POÉTICO

Três três passarás
Nonato Albuquerque
Era uma vez um colibri que,
pequeno e frágil como se deve a todo colibri,
passou rasante no roseiral da vizinhança
sem tempo para sugar o néctar de nenhuma rosa.
Entristecida, uma delas se curvou na haste
e soluçou uma gota de orvalho
que uma esperança no galho mais embaixo,
quase se afogou.
O verde inseto abanou suas asas molhadas,
e enquanto se enxugava com suas pontiaguadas antenas
limitou-se a um desabafo:
ah! colibri sem vergonha,
"me mijou!"

DESPRENDIMENTO


Andei por todos os quadrantes
em busca de mim mesmo.
Não me vi entre os sábios,
nem me encontrei entre os tolos.

Persegui-me no caminho do sol
e nem na noite, visualizei-me.
Tenho medo de não estar
na cama, onde sempre durmo.

Amanhã, pretendo mudar isso.
Vou me ajustar nessa roupa-corpo
e andar um pouco apressado

Falar menos de mim e vê se acho
alguma imagem do que fui e sou
Para me ver possível no futuro.

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

AS FLORES QUE BEIJAM O BEIJA-FLOR


Um beija flor pequenino,
Embora todos o sejam,
Mas por ser inda menino
Confunde as flores que almeja

E sai beijando um vestido
Pelo qual se apaixona
e, sem temor, dá sentido
ao cortejar sua dona.

Quem pensou fosse loucura
O que o beija flor deseja
Não viu que a floricultura
Do vestido é quem o beija.


AS INVISÍVEIS MÃOS DO TEMPO


AS INVISÍVEIS MÃOS DO TEMPO
Onde antes brincavam, hoje só descansam.
Por onde antes trabalharam em sacrifício
edificando a Vida, hoje, silentes, em repouso
acrescentam textura nova às velhas marcas.
Onde antes primavera, o outono delineia-se.
Invernos e verões passaram e elas acenaram
A tantas outras com quem cruzaram caminhos,
E despediram-se com promessas de voltar.
Falo das mãos, essas ferramentas indispensáveis
que amanhecem desde o despertar da existência
E atravessam rios de tempo, ruas de conversas,
até chegarem ao ocaso de todas essas andanças
Mudando a tez, enrugando-se como folhas de papel
Que mãos invisíveis amarfaranham através dos anos.
de Nonato Albuquerque